Tá aqui, http://oglobo.globo.com/opiniao/o-patrono-da-educacao-brasileira-16848457, mas resolvi responder no próprio texto do colunista.
Gostaria de enviar para o jornal em questão, mas não consigo por causa do tamanho. Peço, então que, caso concordem comigo, ma ajudem a divulgar.
Grande e Agradecido abraço
Denise
O patrono da educação brasileira
Os americanos têm como ícones Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, John Adams e George Washington. Já o Brasil encontrou em Paulo Freire uma grande inspiração. Cada povo tem o herói que merece
Interessante... Não vi nenhum educador americano dentre os citados. Estamos comparando laranjas com bicicletas? Por aqui tivemos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Médici, Sarney e Collor.
Uma das formas de se analisar uma sociedade é ver quem são seus heróis. Os americanos, por exemplo, têm nos “pais fundadores” grandes ícones, gente como Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, John Adams e George Washington. Já o Brasil encontrou em Paulo Freire uma grande inspiração, a ponto de transformá-lo no “patrono” de nossa educação. Cada povo tem o herói que merece.
Concordo plenamente com a primeira frase, mas continuamos comparando tecidos com poemas.
Creio que cada povo tem o herói que pode ter, de acordo com o seu contexto histórico cultural e suas necessidades. Podemos pedir a algum professor de História para nos ajudar nessa tarefa. Pelo raciocínio do colunista, nossos heróis deveriam ser Deodoro da Fonseca, Prudente de Morais etc. É isso?
Pergunto ao leitor: já leu algum livro de Freire? É um exercício e tanto de paciência. Seu linguajar é enfadonho, diz algumas coisas um tanto óbvias de forma aparentemente profunda, que revela apenas uma mente confusa, e usa a “pedagogia” para, no fundo, pregar o marxismo radical. Foi seu grande “mérito”: levar Marx para dentro das salas de aula.
A leitura de Paulo Freire pode ser realmente enfadonha para quem não é da área. A crítica é quanto ao estilo do educador? Para os professores, Paulo Freire foi o primeiro a dizer com todas as letras o que era necessário ser dito. É repetitivo, sim, para que as ideias fiquem bem claras. Quanto a dizer coisas óbvias, aparentemente profundas... Vamos lembrar que, quando Paulo Freire começou a divulgar os seus escritos, estávamos na década de 60. Certamente, naquele momento, não era nada óbvio falar que a Educação deveria ser para todos. Pela legislação brasileira, a universalização da escolaridade, começou em meados dos anos 70. Até então, apenas os filhos da elite frequentavam a escola pública. Gostaria que o colunista explicitasse melhor o que considera coisas aparentemente profundas. Por favor, aprofunde. Mente confusa? O colunista resolveu fazer uma análise terapêutica do modo de pensar e expressar ideias do Paulo Freire?
Levar as ideias marxistas para as salas de aula era o que havia de mais sensato e necessário a ser feito naquele momento histórico. A Educação deve, sim, se apropriar da sua função política (de polis, de cidadania) e formar cidadãos que transformem a sociedade e não apenas a reproduzam.
Seu ponto de vista é o dos “excluídos”, diz ele, monopolizando as virtudes e os fins nobres. Somente quem endossa seu viés “progressista” quer o bem dos mais pobres. O restante, os “neoliberais”, esses querem apenas manter o status quo, preservar um sistema opressor. São pessoas ruins. E contra eles, os “oprimidos” devem se rebelar, lutar pela utopia igualitária.
Sim, é exatamente isso, também. O colunista compreendeu parte da ideologia freiriana. Volto a lembrar que opinar sem levar em conta o contexto histórico, é apenas leviano. A luta pela utopia igualitária permanece firme até o dias de hoje, ou o colunista acha que está tudo muito bem, obrigado? O colunista acredita que exista ação que não seja política? Não estou falando de partidos, mas de consciência do que significa fazer parte de um grupo, urbano, ou não, mas que claramente existem classes que mandam e classes que obedecem. E nenhuma ação política é isenta de ideologia (juro que pensei que isso fosse ensinado nas faculdades de economia).
Era dada a justificativa para que professores se transformassem em militantes ideológicos, usando as salas de aula não mais para ensinar conteúdo de forma minimamente objetiva, mas para “transformar a sociedade”, para “formar novos cidadãos”, naturalmente marxistas empenhados na causa utópica, como o próprio Freire. A doutrinação ideológica ganhava ares de justiça, graças ao pedagogo marxista.
Parece que essa parte o colunista também entendeu. O que, me parece, não foi compreendido é que quando os professores agiam e continuam agindo de maneira a apenas perpetuar o status quo, sem discernimento, esta também é uma postura política e, naturalmente, ideológica. Só que não numa perspectiva transformadora, mas apenas reprodutora. Nesse ideal, não há injustiças, não há preconceitos, pobres e ricos se entendem muito bem, não há desafios sociais a serem superados. Ou seja, para o colunista, a sociedade está ótima do jeito que está e assim deve ser mantida. Não há porque se buscar transformações... É o que estou entendendo.
Contra o “fatalismo pragmático” dos “neoliberais”, Freire oferecia a “conscientização”, ou seja, os professores deveriam mostrar as “injustiças” do sistema capitalista, da globalização, conscientizando os alunos da necessidade de luta, de revolta contra os ricos, já que, para ele, a riqueza era fruto da exploração da pobreza, era uma “agressão” contra os desvalidos.
O colunista imagina quais outras formas – que não a conscientização – possíveis e desejáveis em um espaço educativo? O colunista continua acreditando que não há injustiças no sistema capitalista? Que a população não tem que ter clareza e tentar lutar pela igualdade? (Em nenhum momento falamos em pegar em armas, está entendido?). Essa luta é ideológica, sim, é política, sim e se dá através das ideias. Mas se as pessoas “não devem” aprender nas escolas que a sociedade é injusta, como vão aprender a confrontar as ideias? Alguma sugestão?
Postura minimamente neutra do professor, que oferece ao aluno diferentes pontos de vista, dá espaço ao contraditório, deixa o próprio jovem desenvolver um pensamento crítico e tirar suas conclusões por conta própria? Isso é uma ilusão que atende somente às elites opressoras. A prática educativa, diz Freire, é política por definição, não pode ser neutra, e por isso o professor “progressista” pode, deve levar todo seu viés para dentro de sala de aula.
Caro colunista, não existe postura neutra, por favor, vamos adiantar o passo. Ou ela transforma ou ela reproduz. O risco que corremos desde sempre, é que numa democracia, alguns professores podem pensar como o colunista e atuar pela reprodução do status quo. Por isso, o trabalho é de conscientização. Não é de ordem vinda de cima pra baixo, como passamos décadas obedecendo e nem de lavagem cerebral, como o colunista quer fazer crer.
Era a desculpa perfeita para militantes medíocres se tornarem “professores” e encherem a cabeça de nossa juventude com porcaria revolucionária. Hoje, os sindicatos dos professores, ligados aos partidos de extrema-esquerda, dominam o ensino público, todos inspirados em Freire. Nas aulas, o assassino Che Guevara é tratado como herói idealista, os invasores do MST como instrumentos de “justiça social”, e o lucro capitalista como exploração injusta.
Meu Deus, de onde você saiu, caro colunista??? Em que século você está? Militantes medíocres se tornando professores? Onde você pesquisou essa afirmação? Qual a sua base teórica para fazer tal assertiva? Encher a cabeça de nossa juventude com porcaria revolucionária? Do que é que você está falando? É medo que você tem? De quê? Pode se abrir aqui com a gente.
“Nunca me foi possível separar em dois momentos o ensino dos conteúdos da formação ética dos educandos”, escreve ele em “Pedagogia da autonomia” (tem ainda a do oprimido, a da solidariedade, a da esperança...). O pequeno “detalhe” é o que ele entendia como “formação ética”, claro. No caso, era “formar” novos seres “conscientes” de sua situação de oprimidos, para que reagissem contra as “injustiças do sistema”. Ou seja, criar soldados comunistas!
Uau! Pegou muito pesado agora! Criar soldados comunistas??? Meu caro colunista, em que lugar do mundo você esteve nos últimos 50 anos? Certamente, tudo o que você leu – todas as Pedagogias – de Paulo Freire - mesmo ele repetindo muito – não conseguiram fazer com que você entendesse suas ideias. A culpa deve ser da mente confusa de Freire, porque a do colunista está em perfeito estado de conservação. Tô me sentindo conversando com o grande herói americano Joseph MacCarthy que, felizmente, morreu em 1957.
Caso alguém ainda tenha dúvidas acerca de seus objetivos, ou pense que exagero na interpretação, deixemos o próprio explicar melhor: “Quando falo em educação como intervenção me refiro tanto à que aspira a mudanças radicais na sociedade, no campo da economia, das relações humanas, da propriedade, do direito ao trabalho, à terra, à educação, à saúde, quanto à que, pelo contrário, reacionariamente pretende imobilizar e manter a ordem injusta”.
Vou tentar mais uma vez. Caro colunista, eram os anos 60/70. Não havia discussão. Os professores não podiam se encontrar para discutir ideias, entendeu? Era contra essa situação justa (segundo o colunista) que tentava-se reagir. Em Educação, a palavra intervenção, não significa impedimento, mas como o próprio Freire explica, significa uma pausa para a retomada, para a discussão democrática. E ele deixa bem claro que, permitir que o professor aja é correr o risco de formarmos cidadãos ou formarmos reacionários. O colunista sabe qual é a diferença?
Ou seja, de um lado temos os “progressistas” como ele, que querem salvar a humanidade das garras capitalistas e levar prosperidade aos mais pobres; do outro temos os “reacionários” e “neoliberais”, que pretendem apenas manter o quadro de exploração da miséria alheia. E esse “educador” virou o patrono da educação brasileira!
SIM!!! Queremos salvar a humanidade, sim, senão estaríamos em outra profissão. Da mesma maneira que o médicos querem salvar pessoas, educadores querem ajudar a formar pessoas sabidas, criativas e ousadas, sem medo da sociedade e conscientes de seu papel sócio histórico no mundo.
Deixo o comentário final com Dom Lourenço de Almeida Prado, esse sim um grande educador que o país teve, reitor por anos do prestigiado Colégio São Bento: “É uma lástima que o meio católico se tenha deixado contagiar por esse mestre equívoco da pedagogia que é Paulo Freire e por essa falsa elaboração que chama educação libertadora. Na verdade, ela nada tem de libertadora, como nada tem de pedagogia. É uma campanha política, de fundo marxista, isto é, fundada no dogma da luta de classes e na divisão da humanidade entre opressores e oprimidos”.
Fala sério, colunista! Com todo respeito ao D. Lourenço (fui, inclusive, aluna dele, na Universidade Santa Úrsula), você traz como exemplo uma pessoa que passou a vida toda dedicada a formar elites. O meio católico de D. Loureço não reconhece os Freis Leonardo Boff e o Betto. Nunca se aproximou da pobreza real, nunca lutou pelos desassistidos (ou o colunista acha que eles não existem?). Ao contrário, sempre trabalhou de comum acordo com quem manda, numa clara herança e obediência à Igreja, ou o colunista desconhece o quanto Governos e Igreja sempre se confundiram na história do mundo?
Rodrigo Constantino é economista
Denise Vilardo é professora
Como última reflexão, quero externar que acho que as pessoas devem procurar comentar sobre que lhes é afeito. É evidente que todos os âmbitos sociais são da conta da sociedade, portanto todos gozam de liberdade para falarem o que querem. Me preocupa, sim, quando a pessoa dispõe de quase meia página de um jornal de amplitude nacional. A Educação parece ser a casa mãe joana, em que sempre tem alguém para palpitar, como se não houvesse conhecimento acumulado nas diferente áreas. Acho que nunca vi professor algum escrever algo contra ou a favor de Adam Smith ou Delfim Netto, que merecesse meia página de jornal, mesmo que fosse a tribuna de um jornal de bairro.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/o-patrono-da-educacao-brasileira-16848457#ixzz3gXSMglXI
A professora ao contrário, descorrige redações, faz recreio nas aulas, ensina brincando e, o mais importante, aprende com os alunos. Misturando o prazer de aprender com o gosto de brincar, a professora e seus alunos fazem da escola um lugar de livre pensamento, de invenções e de descobertas. (do livro Flávia-Flávia: a professora ao contrário, de Luiz Raul Machado)
terça-feira, 21 de julho de 2015
quarta-feira, 27 de maio de 2015
É um desastre
O sistema de educação foi concebido para preparar as pessoas para ontem, não para hoje e muito menos para amanhã. São duas ordens de coisas: a primeira é o sistema falho, defasado, que continua preso aos ideais sociais do final do século XIX; outra coisa é a crença de que devemos preparar as pessoas para o futuro.
Preparar as pessoas para o futuro fazia sentido quando havia prognóstico sobre qual era o futuro que teríamos. Temos que preparar as pessoas para viver o hoje. Os sistemas de ensino sobrevivem como se fossem ilhas, isoladas da sociedade. As referências são efêmeras, difusas e, alunos e professores, encontram-se perdidos para lidar com o aqui e o agora.
A questão é preparar as pessoas para a imprevisibilidade. Brincávamos no colégio em que eu trabalhava, que nosso slogan deveria ser: "Aqui preparamos para o fracasso". É óbvio que não conseguiríamos aluno algum, mas seríamos mais coerentes com a necessária e urgente humanização do sistema. Os colégios "vendem" um falso produto, que é o sucesso irrestrito. Isso não condiz com a própria vida. Afora os conteúdos repetitivos e defasados, no colégio não entram os sentimentos de perda, de morte, de vida, de sexualidade, de frustrações.
A saída? Desconstruir a maioria das "verdades" que temos reproduzido incessantemente. Reconstruir novos e coerentes sentidos para a Educação. Perguntar-se continuamente, por que faço isso ou aquilo? Por que escolho isso e não aquilo? Utilizar as tecnologias para a construção de um novo projeto de sociedade. Uma visão sustentável em todos os âmbitos.
Preparar as pessoas para o futuro fazia sentido quando havia prognóstico sobre qual era o futuro que teríamos. Temos que preparar as pessoas para viver o hoje. Os sistemas de ensino sobrevivem como se fossem ilhas, isoladas da sociedade. As referências são efêmeras, difusas e, alunos e professores, encontram-se perdidos para lidar com o aqui e o agora.
A questão é preparar as pessoas para a imprevisibilidade. Brincávamos no colégio em que eu trabalhava, que nosso slogan deveria ser: "Aqui preparamos para o fracasso". É óbvio que não conseguiríamos aluno algum, mas seríamos mais coerentes com a necessária e urgente humanização do sistema. Os colégios "vendem" um falso produto, que é o sucesso irrestrito. Isso não condiz com a própria vida. Afora os conteúdos repetitivos e defasados, no colégio não entram os sentimentos de perda, de morte, de vida, de sexualidade, de frustrações.
A saída? Desconstruir a maioria das "verdades" que temos reproduzido incessantemente. Reconstruir novos e coerentes sentidos para a Educação. Perguntar-se continuamente, por que faço isso ou aquilo? Por que escolho isso e não aquilo? Utilizar as tecnologias para a construção de um novo projeto de sociedade. Uma visão sustentável em todos os âmbitos.
sábado, 9 de maio de 2015
Vítima de racismo em escola, menina é obrigada a pedir desculpas aos agressores
Escrito por Fernanda Canofre Desde que Camila dos Santos Reis consegue lembrar, a filha Lorena, de 12 anos, sempre foi uma menina doce, que gosta de correr pelo Parque Ibirapuera, em São Paulo, e assistir desenhos da Disney. No entanto, desde a volta às aulas esse ano, Lorena estava diferente — mais quieta, retraída. Era uma noite de março quando Camila recebeu uma ligação da escola avisando que Lorena seria transferida de turma porque “os colegas não se adaptaram a ela”.
Foi difícil para Camila entender. As duas sempre foram muito próximas, era estranho que Lorena não tivesse contado nada. Quando a mãe a procurou, ela explicou: tinha vergonha. Desde o início do ano letivo, Lorena — que é negra — estava sofrendo bullying e racismo na escola. No mesmo dia em que Camila recebeu a ligação, Lorena havia procurado a direção para reclamar dos ataques. Mas, segundo Camila, a escola só tomou medidas para identificar quem estava por trás dos atques duas semanas depois. Quando os outros alunos souberam que Lorena teve que nomear os agressores, acabou sendo confrontada, como conta o post da página Preta e Acadêmica: no espaço da escola, seus “colegas” começaram a questionar sobre o ocorrido, e como ela pode ter os dedurado, iniciando uma gritaria contra a criança, que correu para os braços da diretora do colégio.
A diretora, que “já está de saco cheio dessa história” (palavras da própria), resolveu fazer uma acareação. O resultado? Lorena teve que pedir desculpas para seus agressores. Por fim, a diretora perguntou se a menina gostaria de trocar de turma e Lorena, cansada, aceitou.
Quatro dias depois, as coisas pioraram. Como Camila contou em seu perfil do Facebook, compartilhado por mais de 74 mil pessoas, Lorena lhe enviou uma mensagem com a frase: “Olha como eu sofro”, seguida de uma série de áudios. (…) coloquei meu fone no ouvido, e apertei o botão “REPRODUZIR”, que susto eu levei… logo a primeira frase gritada em alto e bom som foi “SUA PRETA, TESTA DE BATER BIFE DO CARA*****”, foram 53 segundos de ofensas horrorizantes, palavrões ofensivos, a nível físico, racial e por incrível que pareça sexual, vinda de um garoto de aproximadamente 13 anos morador do condomínio onde vivemos.
Um grupo formado por 20 crianças — alguns da escola de Lorena, outros, seus vizinhos em São Bernardo do Campo — usaram um grupo no Whatsapp para seguir com as agressões contra Lorena. Camila conta no mesmo post: pedi para ela me mandar todos os áudios que tinha recebido, uma sequência de mais de 20 áudios aproximadamente, então percebi que os áudios estavam sendo enviados de um grupo de amizade da qual ela faz parte. Todos os participantes do grupo são do condomínio, onde 2 meninos a ofendiam enquanto alguns outros incentivavam as ofensas.
As frases que mais marcaram e mais me assustaram foram: “SUA PRETA, TESTA DE BATE BIFE DO CARA******!” “EU SOU RACISTA MESMO, QUANDO EU QUERO SER RACISTA EU SOU RACISTA, ENTENDEU?” “TODA VEZ QUE EU ENCONTRAR ELA NA MINHA FRENTE EU VOU ZUAR ATÉ ELA CHORAR” “VOCÊ VAI FICAR NESTE GRUPO ATÉ VOCÊ CHORAR” “CABELO DE MOVEDIÇA, CABELO DE MIOJO, CABELO DE MACARRÃO”
Muitos dos colegas ficaram quietos e preferiram não se manifestar, um deles até saiu do grupo quando as ofensas começaram, teve outro que se revoltou e disse que estavam passando dos limites e que aquilo já era desrespeito demais.
Entrei em choque, diante de tantas agressões psicológicas, tamanha inconsequência dessa juventude que ainda nos dias de hoje se comporta de maneira tão cruel, não posso encarar essa situação como “coisa de criança”, racismo nunca foi coisa de criança. Por envolver menores de idade, o caso foi encaminhado ao Conselho Tutelar. Dentro da escola, não houve nenhuma punição aos agressores ou mesmo uma tentativa de abordar a agressão com os envolvidos.
Em entrevista ao Global Voices, Camila revelou que isso foi o que a deixou mais indignada. “É o errado vencendo o certo, trocou de turma, mas os alunos não foram conscientizados do erro que estavam cometendo, e nos corredores da escola quando se encontrassem, como seria? Eles iam continuar ofendendo ela? Recebi uma ligação da escola no período da noite me informando que ela seria trocada de turma porque não houve uma adaptação. Como assim? E na sociedade aonde eu coloco ela?”. “Não é bullying, e sim racismo”
O que aconteceu com Lorena parece denominador comum na infância de alunos negros. É a experiência de vida de milhares de meninas negras que passam pelos anos de escola tendo que ouvir piadas sobre seus cabelos e a cor da pele. Todas vítimas de racismo, não bullying.
Para diferenciar as duas formas de preconceito, em 2013, um grupo de 21 mulheres negras resolveu reunir suas histórias de escola no livro “Negras (in)confidências: Bullying, não. Isto é racismo”, onde explicam: As organizadoras fazem questão de afirmar que o que ocorre com as crianças negras não é bullying e sim racismo, pois, no primeiro caso, a maior parte das agressões acontece sem a presença dos adultos e os que sofrem a agressão tendem a cometer atos de agressão por terem sofrido agressões, mas não falam sobre o assunto. O racismo, no entanto, é uma ideologia que afirma uma raça superior a outra; a ideologia é tão difundida que as agressões ocorrem tanto na presença de adultos, como os mesmos as promovem, assim, mesmo que as crianças procurem ajuda na escola, não a obterão, o que aumenta a sensação de injustiça e solidão. Acreditam que o bullying inferioriza e o racismo, para além de inferiorizar, desumaniza o ser humano.
Uma pesquisa realizada pela Fundação Institucional de Pesquisas Econômicas (Fipe), em 2009, mostrou que o preconceito étnico-racial é o segundo mais forte nas escolas brasileiras, atrás apenas de preconceito por questões físicas, como obesidade. O estudo ouviu professores, funcionários e alunos de 500 escolas em todo o país. Apenas 5% dos entrevistados eram negros. Em 2003, a assinatura da lei 10.639, tornando o ensino da “História e Cultura Afro-Brasileira” temática obrigatória nas escolas, parecia anunciar uma mudança no sistema. Mas não foi bem assim.
Dez anos depois, num artigo na Revista Fórum, o professor Dennis Oliveira, membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (Neinb), apontou entre os problemas na implementação da lei a resistência de cursos superiores de pedagogia em incluir a matéria no currículo e, consequentemente, a falta de professores com formação nela. Viviane de Paula, em artigo publicado no site Blogueiras Negras, afirma que “o ambiente escolar é ainda agente opressor para muitas identidades”, algo que tanto o Estado quanto as comunidades escolares ainda não conseguem reconhecer: a escola, sem dúvidas, é um espaço sócio-cultural que deve aceitar e, sobretudo, discutir amplamente a pluraridade cultural, até mesmo como uma maneira de desconstruir preconceitos. O que muitas vezes presencia-se nas escolas são atitudes de descaso e silenciamento por parte da gestão escolar. Observa-se que os gestores de instituições públicas e privadas não se posicionam: é mais fácil esconder, do que problematizar.
#SomosTodasLorena
Depois de tudo o que aconteceu na escola, Lorena só queria ver o pai, a mãe e a melhor amiga. “Isso gerou uma insegurança muito grande nela, além da resistência em ir para a escola, ela está tendo muita dificuldade de dormir, acorda de madrugada e não consegue mais pegar no sono, e o apetite dela diminuiu muito”, contou Camila em entrevista ao GV. Ainda assim, o apoio que Camila encontrou nas redes sociais desde que contou a história da filha revela que a internet se abriu como espaço de afirmação a tudo aquilo que é ignorado fora da rede. “Diante da proporção que este caso tomou e da quantidade de mensagens de apoio, ajuda e carinho que recebemos, acredite, existem muito mais pessoas do bem do que do mal”, comentou em entrevista ao GV.
Logo após a publicação do relato no Facebook, um sociólogo escreveu para Camila se oferecendo para realizar um treinamento com o corpo docente da escola sobre medidas socioeducativas a serem tomadas nesse tipo de situação. A escola aceitou, mas depois voltou atrás. Segundo Camila, ainda há muito para acontecer até a conclusão do caso. A hashtag #SomosTodasLorena começou a circular mostrando mães e comunidades dedicadas a exaltar os cabelos crespos, como o grupo As Vantagens de se Enrolar. Desde que sua história apareceu na internet, Lolô (como Lorena é carinhosamente chamada) adotou um black power. Um começo para ela descobrir como ela é linda e tem poder.
Foi difícil para Camila entender. As duas sempre foram muito próximas, era estranho que Lorena não tivesse contado nada. Quando a mãe a procurou, ela explicou: tinha vergonha. Desde o início do ano letivo, Lorena — que é negra — estava sofrendo bullying e racismo na escola. No mesmo dia em que Camila recebeu a ligação, Lorena havia procurado a direção para reclamar dos ataques. Mas, segundo Camila, a escola só tomou medidas para identificar quem estava por trás dos atques duas semanas depois. Quando os outros alunos souberam que Lorena teve que nomear os agressores, acabou sendo confrontada, como conta o post da página Preta e Acadêmica: no espaço da escola, seus “colegas” começaram a questionar sobre o ocorrido, e como ela pode ter os dedurado, iniciando uma gritaria contra a criança, que correu para os braços da diretora do colégio.
A diretora, que “já está de saco cheio dessa história” (palavras da própria), resolveu fazer uma acareação. O resultado? Lorena teve que pedir desculpas para seus agressores. Por fim, a diretora perguntou se a menina gostaria de trocar de turma e Lorena, cansada, aceitou.
Quatro dias depois, as coisas pioraram. Como Camila contou em seu perfil do Facebook, compartilhado por mais de 74 mil pessoas, Lorena lhe enviou uma mensagem com a frase: “Olha como eu sofro”, seguida de uma série de áudios. (…) coloquei meu fone no ouvido, e apertei o botão “REPRODUZIR”, que susto eu levei… logo a primeira frase gritada em alto e bom som foi “SUA PRETA, TESTA DE BATER BIFE DO CARA*****”, foram 53 segundos de ofensas horrorizantes, palavrões ofensivos, a nível físico, racial e por incrível que pareça sexual, vinda de um garoto de aproximadamente 13 anos morador do condomínio onde vivemos.
Um grupo formado por 20 crianças — alguns da escola de Lorena, outros, seus vizinhos em São Bernardo do Campo — usaram um grupo no Whatsapp para seguir com as agressões contra Lorena. Camila conta no mesmo post: pedi para ela me mandar todos os áudios que tinha recebido, uma sequência de mais de 20 áudios aproximadamente, então percebi que os áudios estavam sendo enviados de um grupo de amizade da qual ela faz parte. Todos os participantes do grupo são do condomínio, onde 2 meninos a ofendiam enquanto alguns outros incentivavam as ofensas.
As frases que mais marcaram e mais me assustaram foram: “SUA PRETA, TESTA DE BATE BIFE DO CARA******!” “EU SOU RACISTA MESMO, QUANDO EU QUERO SER RACISTA EU SOU RACISTA, ENTENDEU?” “TODA VEZ QUE EU ENCONTRAR ELA NA MINHA FRENTE EU VOU ZUAR ATÉ ELA CHORAR” “VOCÊ VAI FICAR NESTE GRUPO ATÉ VOCÊ CHORAR” “CABELO DE MOVEDIÇA, CABELO DE MIOJO, CABELO DE MACARRÃO”
Muitos dos colegas ficaram quietos e preferiram não se manifestar, um deles até saiu do grupo quando as ofensas começaram, teve outro que se revoltou e disse que estavam passando dos limites e que aquilo já era desrespeito demais.
Entrei em choque, diante de tantas agressões psicológicas, tamanha inconsequência dessa juventude que ainda nos dias de hoje se comporta de maneira tão cruel, não posso encarar essa situação como “coisa de criança”, racismo nunca foi coisa de criança. Por envolver menores de idade, o caso foi encaminhado ao Conselho Tutelar. Dentro da escola, não houve nenhuma punição aos agressores ou mesmo uma tentativa de abordar a agressão com os envolvidos.
Em entrevista ao Global Voices, Camila revelou que isso foi o que a deixou mais indignada. “É o errado vencendo o certo, trocou de turma, mas os alunos não foram conscientizados do erro que estavam cometendo, e nos corredores da escola quando se encontrassem, como seria? Eles iam continuar ofendendo ela? Recebi uma ligação da escola no período da noite me informando que ela seria trocada de turma porque não houve uma adaptação. Como assim? E na sociedade aonde eu coloco ela?”. “Não é bullying, e sim racismo”
O que aconteceu com Lorena parece denominador comum na infância de alunos negros. É a experiência de vida de milhares de meninas negras que passam pelos anos de escola tendo que ouvir piadas sobre seus cabelos e a cor da pele. Todas vítimas de racismo, não bullying.
Para diferenciar as duas formas de preconceito, em 2013, um grupo de 21 mulheres negras resolveu reunir suas histórias de escola no livro “Negras (in)confidências: Bullying, não. Isto é racismo”, onde explicam: As organizadoras fazem questão de afirmar que o que ocorre com as crianças negras não é bullying e sim racismo, pois, no primeiro caso, a maior parte das agressões acontece sem a presença dos adultos e os que sofrem a agressão tendem a cometer atos de agressão por terem sofrido agressões, mas não falam sobre o assunto. O racismo, no entanto, é uma ideologia que afirma uma raça superior a outra; a ideologia é tão difundida que as agressões ocorrem tanto na presença de adultos, como os mesmos as promovem, assim, mesmo que as crianças procurem ajuda na escola, não a obterão, o que aumenta a sensação de injustiça e solidão. Acreditam que o bullying inferioriza e o racismo, para além de inferiorizar, desumaniza o ser humano.
Uma pesquisa realizada pela Fundação Institucional de Pesquisas Econômicas (Fipe), em 2009, mostrou que o preconceito étnico-racial é o segundo mais forte nas escolas brasileiras, atrás apenas de preconceito por questões físicas, como obesidade. O estudo ouviu professores, funcionários e alunos de 500 escolas em todo o país. Apenas 5% dos entrevistados eram negros. Em 2003, a assinatura da lei 10.639, tornando o ensino da “História e Cultura Afro-Brasileira” temática obrigatória nas escolas, parecia anunciar uma mudança no sistema. Mas não foi bem assim.
Dez anos depois, num artigo na Revista Fórum, o professor Dennis Oliveira, membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (Neinb), apontou entre os problemas na implementação da lei a resistência de cursos superiores de pedagogia em incluir a matéria no currículo e, consequentemente, a falta de professores com formação nela. Viviane de Paula, em artigo publicado no site Blogueiras Negras, afirma que “o ambiente escolar é ainda agente opressor para muitas identidades”, algo que tanto o Estado quanto as comunidades escolares ainda não conseguem reconhecer: a escola, sem dúvidas, é um espaço sócio-cultural que deve aceitar e, sobretudo, discutir amplamente a pluraridade cultural, até mesmo como uma maneira de desconstruir preconceitos. O que muitas vezes presencia-se nas escolas são atitudes de descaso e silenciamento por parte da gestão escolar. Observa-se que os gestores de instituições públicas e privadas não se posicionam: é mais fácil esconder, do que problematizar.
#SomosTodasLorena
Depois de tudo o que aconteceu na escola, Lorena só queria ver o pai, a mãe e a melhor amiga. “Isso gerou uma insegurança muito grande nela, além da resistência em ir para a escola, ela está tendo muita dificuldade de dormir, acorda de madrugada e não consegue mais pegar no sono, e o apetite dela diminuiu muito”, contou Camila em entrevista ao GV. Ainda assim, o apoio que Camila encontrou nas redes sociais desde que contou a história da filha revela que a internet se abriu como espaço de afirmação a tudo aquilo que é ignorado fora da rede. “Diante da proporção que este caso tomou e da quantidade de mensagens de apoio, ajuda e carinho que recebemos, acredite, existem muito mais pessoas do bem do que do mal”, comentou em entrevista ao GV.
Logo após a publicação do relato no Facebook, um sociólogo escreveu para Camila se oferecendo para realizar um treinamento com o corpo docente da escola sobre medidas socioeducativas a serem tomadas nesse tipo de situação. A escola aceitou, mas depois voltou atrás. Segundo Camila, ainda há muito para acontecer até a conclusão do caso. A hashtag #SomosTodasLorena começou a circular mostrando mães e comunidades dedicadas a exaltar os cabelos crespos, como o grupo As Vantagens de se Enrolar. Desde que sua história apareceu na internet, Lolô (como Lorena é carinhosamente chamada) adotou um black power. Um começo para ela descobrir como ela é linda e tem poder.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
A Educação que temos rouba dos jovens a Consciência, o Tempo e a Vida
Quando ouvimos este psiquiatra chileno de 75 anos, temos a sensação de estarmos diante de Jean-Jacques Rousseau do nosso tempo. Ele nos conta que esteve bastante adormecido até os anos 60, quando se mudou para os EUA, se tornou discípulo de Fritz Perls, um dos grandes terapeutas do século XX, e passou a integrar a equipe de terapeutas do Instituto Esalen da Califórnia. A partir deste momento passou a ter profundas experiências no mundo terapêutico e espiritual. Entrou em contato com o Sufismo e tornou-se um dos introdutores do Eneagrama no Ocidente. Ele também se aprofundou nos estudos do budismo tibetano e do zen.
Claudio Naranjo tem dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino em universidades como Harvard e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração de Gestalt-terapia, o Eneagrama e Meditação para enriquecer a formação de terapeutas professores. Neste momento, lança um alerta contundente: ou mudamos a educação ou o mundo vai afundar.
1- Você diz que para mudar o mundo é preciso mudar a educação. Qual é o problema da educação e qual é a sua proposta?
– O problema da educação não é de forma alguma o que os educadores pensam que é. Acreditam que os alunos não querem mais o que eles tem a oferecer. Aos alunos vão querer forçar uma educação irrelevante e estes se defendem com distúrbios de atenção e com a desmotivação. Eu acho que a educação não está a serviço da evolução humana, mas sim da produção ou da socialização. Esta educação serve para adestrar as pessoas de geração em geração, a fim de continuarem sendo manipulados como cordeiros pela mídia. Este é um grande mal social, querer usar a educação como uma maneira de embutir na mente das pessoas um modo de ver as coisas que irá atender ao sistema e a burocracia. Nossa maior necessidade é evoluir na educação, para que as pessoas sejam o que elas poderiam ser. A crise da educação não é uma crise, entre as muitas crises que temos, uma vez que a educação é o cerne do problema. O mundo está em uma profunda crise por não termos uma educação voltada para a consciência. Nossa educação está estruturada de uma forma que rouba as pessoas de sua consciência, seu tempo e sua vida. O modelo de desenvolvimento econômico de hoje tem ofuscado o desenvolvimento da pessoa.
2- Como seria uma educação para a qual sejamos seres completos?
– A educação ensina as pessoas a passarem por exames, não a pensarem por si mesmas. É um tipo de exame em que não se mede a compreensão e sim a capacidade de repetir. É ridículo, se perde uma grande quantidade de energia! Ao invés de uma educação para a informação, precisamos de uma educação que aborde o aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Para mim parece que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação secular e uma educação autoritária, que é a educação religiosa tradicional. Está tudo bem separar o Estado e a Igreja mas, por exemplo, a Espanha, tem descartado o espírito, como se religião e espírito fossem a mesma coisa. Precisamos que a educação também atenda à mente profunda.
3- Quando você fala sobre a espiritualidade e a mente profunda o que quer dizer exatamente?
- Tem a ver com a própria consciência, com essa parte da mente da qual depende o sentido da vida. Está se educando as pessoas, sem este sentido. Tampouco é uma educação de valores, porque a educação de valores é demasiadamente retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação pessoal e esta transformação está longe da educação atual. A educação deve também incluir um aspecto terapêutico. O desenvolvimento pessoal não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito danificados afetiva e emocionalmente pelo fato de que o mercado de trabalho esta absorvendo os pais que não têm mais disponibilidade para os filhos. Há muita carência amorosa e muitos desequilíbrios nas crianças. Não pode aprender intelectualmente uma pessoa que está emocionalmente danificada. O lado terapêutico tem muito a ver com resgatar na pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de satisfazer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado, tanto a formação, quanto a criança, são instrumentos desta domesticação. Temos uma civilização doente que os artistas perceberam há muito tempo e agora cada vez mais pensadores, percebem também.
4- A educação parece interessada apenas em desenvolver as pessoas racionais. Que outras partes mais poderiam ser desenvolvidas?
-Eu coloco ênfase de que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que os homens predominaram no controle político, cerca de 6000 anos atrás, instaurou-se o que chamamos de civilização. E não é só o domínio masculino e nem só o domínio da razão, mas também a razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia; é este predomínio da razão instrumental sobre o afeto e a sabedoria instintiva, que nos tem empobrecido. A plenitude só pode existir em uma pessoa que tem os três cérebros ordenados e coordenados. Deste meu ponto de vista, precisamos de uma educação para os seres com três cérebros. Uma educação que poderia ser chamada de holística ou integral. Se vamos educar a pessoa como um todo, devemos ter em mente que a pessoa não é apenas razão. Ao sistema convém que cada pessoa não esteja em contato consigo mesma e nem que pense por si mesma. Por mais que se levante a bandeira da democracia, ele tem muito medo que as pessoas tenham uma voz e estejam conscientes. A classe política não está disposta a investir em educação.
5- A educação nos faz mergulhar em um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente. Como se pode sair desta prisão?
- Esta é uma grande questão, uma questão necessária, no mundo educacional. A ideia de que o conceitual é uma prisão, requer uma certa experiência de que a vida é mais do que isso. Para quem já tem interesse em sair da prisão intelectual, é muito importante ter disciplina para parar a mente, ter a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo… Parar os diálogos internos, em todas as tradições do desenvolvimento humano, tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa se alimentar de coisas a mais, do que conceitos. O sistema educacional quer aprisionar o indivíduo, em um lugar onde ele esteja submetido a uma educação conceitual forçada, como se não houvesse outra coisa na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza…a capacidade de reverência, de admiração, de veneração e de devoção. Isto não tem a ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está se perdendo, da mesma forma que estão perdendo, belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e se urbaniza.
6- Precisamente, quero saber sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.
- Ela é uma crise muito evidente, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que, com o aquecimento global, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, muitas pessoas não poderão sobreviver. Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando ficarmos sem o combustível, será um desastre para o mundo tecnológico que temos. As pessoas que chamamos primitivas, como os índios, têm uma maneira de tratar a natureza que não vem do sentido utilitário. Na ecologia, na economia e em outras coisas, temos dispensado a consciência e trabalhado apenas com argumentos racionais que estão nos levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança pelo coração, com a verdadeira transformação que só um processo educativo pode dar. Com isto, eu não tenho muita fé nas terapias ou religiões. Só uma educação holística poderia evitar a deterioração da mente e do planeta.
7- Poderíamos dizer que você encontrou um equilíbrio em sua vida nesse momento? Eu diria que mais e mais, apesar de eu não ter terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com muita satisfação, a satisfação de ajudar o mundo que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz nesta situação trágica em que todos nós estamos.
8- A partir de sua experiência, da sua carreira e sua maturidade, como você processa a questão da morte?
- Em todas as tradições espirituais aconselha-se, a viver com a morte ao lado. Você tem que chegar a essa evidência de que somos mortais, e que levar a morte a sério não será tão vaidoso. Não teremos tanto medo das coisas pequenas, quando temos uma coisa maior com que nos preocupar. Acredito que a morte só é superada para aqueles que de alguma forma, morrem antes de morrer. Precisamos morrer para a parte mortal, para a parte que não transcende. Aqueles que tem tempo, suficiente dedicação e que vão suficientemente longe nesta viagem interior, finalmente encontram seu verdadeiro Eu. Este ser interior ou este ser que é um, é algo que não tem tempo, e dá a uma pessoa uma certa paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossas vidas diárias, em nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc…Não estamos em nós mesmos, não temos conhecimento de quem somos. Para isso, precisamos estar muito sintonizados com a nossa experiência de tempo. Esta é a condição humana, estamos vivendo no passado e no futuro, no aspecto horizontal de nossas vidas, porém, desatentos para a dimensão vertical da vida, para o aspecto mais alto e mais profundo, nosso espírito e nosso ser. E a chave para este acesso, é o aqui e o agora. Às vezes estamos em busca do ‘Ser’ e às vezes ficamos confusos em busca de outras coisas menos importantes, como o sucesso e a fama.
Claudio Naranjo tem dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino em universidades como Harvard e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração de Gestalt-terapia, o Eneagrama e Meditação para enriquecer a formação de terapeutas professores. Neste momento, lança um alerta contundente: ou mudamos a educação ou o mundo vai afundar.
1- Você diz que para mudar o mundo é preciso mudar a educação. Qual é o problema da educação e qual é a sua proposta?
– O problema da educação não é de forma alguma o que os educadores pensam que é. Acreditam que os alunos não querem mais o que eles tem a oferecer. Aos alunos vão querer forçar uma educação irrelevante e estes se defendem com distúrbios de atenção e com a desmotivação. Eu acho que a educação não está a serviço da evolução humana, mas sim da produção ou da socialização. Esta educação serve para adestrar as pessoas de geração em geração, a fim de continuarem sendo manipulados como cordeiros pela mídia. Este é um grande mal social, querer usar a educação como uma maneira de embutir na mente das pessoas um modo de ver as coisas que irá atender ao sistema e a burocracia. Nossa maior necessidade é evoluir na educação, para que as pessoas sejam o que elas poderiam ser. A crise da educação não é uma crise, entre as muitas crises que temos, uma vez que a educação é o cerne do problema. O mundo está em uma profunda crise por não termos uma educação voltada para a consciência. Nossa educação está estruturada de uma forma que rouba as pessoas de sua consciência, seu tempo e sua vida. O modelo de desenvolvimento econômico de hoje tem ofuscado o desenvolvimento da pessoa.
2- Como seria uma educação para a qual sejamos seres completos?
– A educação ensina as pessoas a passarem por exames, não a pensarem por si mesmas. É um tipo de exame em que não se mede a compreensão e sim a capacidade de repetir. É ridículo, se perde uma grande quantidade de energia! Ao invés de uma educação para a informação, precisamos de uma educação que aborde o aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Para mim parece que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação secular e uma educação autoritária, que é a educação religiosa tradicional. Está tudo bem separar o Estado e a Igreja mas, por exemplo, a Espanha, tem descartado o espírito, como se religião e espírito fossem a mesma coisa. Precisamos que a educação também atenda à mente profunda.
3- Quando você fala sobre a espiritualidade e a mente profunda o que quer dizer exatamente?
- Tem a ver com a própria consciência, com essa parte da mente da qual depende o sentido da vida. Está se educando as pessoas, sem este sentido. Tampouco é uma educação de valores, porque a educação de valores é demasiadamente retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação pessoal e esta transformação está longe da educação atual. A educação deve também incluir um aspecto terapêutico. O desenvolvimento pessoal não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito danificados afetiva e emocionalmente pelo fato de que o mercado de trabalho esta absorvendo os pais que não têm mais disponibilidade para os filhos. Há muita carência amorosa e muitos desequilíbrios nas crianças. Não pode aprender intelectualmente uma pessoa que está emocionalmente danificada. O lado terapêutico tem muito a ver com resgatar na pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de satisfazer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado, tanto a formação, quanto a criança, são instrumentos desta domesticação. Temos uma civilização doente que os artistas perceberam há muito tempo e agora cada vez mais pensadores, percebem também.
4- A educação parece interessada apenas em desenvolver as pessoas racionais. Que outras partes mais poderiam ser desenvolvidas?
-Eu coloco ênfase de que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que os homens predominaram no controle político, cerca de 6000 anos atrás, instaurou-se o que chamamos de civilização. E não é só o domínio masculino e nem só o domínio da razão, mas também a razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia; é este predomínio da razão instrumental sobre o afeto e a sabedoria instintiva, que nos tem empobrecido. A plenitude só pode existir em uma pessoa que tem os três cérebros ordenados e coordenados. Deste meu ponto de vista, precisamos de uma educação para os seres com três cérebros. Uma educação que poderia ser chamada de holística ou integral. Se vamos educar a pessoa como um todo, devemos ter em mente que a pessoa não é apenas razão. Ao sistema convém que cada pessoa não esteja em contato consigo mesma e nem que pense por si mesma. Por mais que se levante a bandeira da democracia, ele tem muito medo que as pessoas tenham uma voz e estejam conscientes. A classe política não está disposta a investir em educação.
5- A educação nos faz mergulhar em um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente. Como se pode sair desta prisão?
- Esta é uma grande questão, uma questão necessária, no mundo educacional. A ideia de que o conceitual é uma prisão, requer uma certa experiência de que a vida é mais do que isso. Para quem já tem interesse em sair da prisão intelectual, é muito importante ter disciplina para parar a mente, ter a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo… Parar os diálogos internos, em todas as tradições do desenvolvimento humano, tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa se alimentar de coisas a mais, do que conceitos. O sistema educacional quer aprisionar o indivíduo, em um lugar onde ele esteja submetido a uma educação conceitual forçada, como se não houvesse outra coisa na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza…a capacidade de reverência, de admiração, de veneração e de devoção. Isto não tem a ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está se perdendo, da mesma forma que estão perdendo, belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e se urbaniza.
6- Precisamente, quero saber sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.
- Ela é uma crise muito evidente, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que, com o aquecimento global, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, muitas pessoas não poderão sobreviver. Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando ficarmos sem o combustível, será um desastre para o mundo tecnológico que temos. As pessoas que chamamos primitivas, como os índios, têm uma maneira de tratar a natureza que não vem do sentido utilitário. Na ecologia, na economia e em outras coisas, temos dispensado a consciência e trabalhado apenas com argumentos racionais que estão nos levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança pelo coração, com a verdadeira transformação que só um processo educativo pode dar. Com isto, eu não tenho muita fé nas terapias ou religiões. Só uma educação holística poderia evitar a deterioração da mente e do planeta.
7- Poderíamos dizer que você encontrou um equilíbrio em sua vida nesse momento? Eu diria que mais e mais, apesar de eu não ter terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com muita satisfação, a satisfação de ajudar o mundo que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz nesta situação trágica em que todos nós estamos.
8- A partir de sua experiência, da sua carreira e sua maturidade, como você processa a questão da morte?
- Em todas as tradições espirituais aconselha-se, a viver com a morte ao lado. Você tem que chegar a essa evidência de que somos mortais, e que levar a morte a sério não será tão vaidoso. Não teremos tanto medo das coisas pequenas, quando temos uma coisa maior com que nos preocupar. Acredito que a morte só é superada para aqueles que de alguma forma, morrem antes de morrer. Precisamos morrer para a parte mortal, para a parte que não transcende. Aqueles que tem tempo, suficiente dedicação e que vão suficientemente longe nesta viagem interior, finalmente encontram seu verdadeiro Eu. Este ser interior ou este ser que é um, é algo que não tem tempo, e dá a uma pessoa uma certa paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossas vidas diárias, em nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc…Não estamos em nós mesmos, não temos conhecimento de quem somos. Para isso, precisamos estar muito sintonizados com a nossa experiência de tempo. Esta é a condição humana, estamos vivendo no passado e no futuro, no aspecto horizontal de nossas vidas, porém, desatentos para a dimensão vertical da vida, para o aspecto mais alto e mais profundo, nosso espírito e nosso ser. E a chave para este acesso, é o aqui e o agora. Às vezes estamos em busca do ‘Ser’ e às vezes ficamos confusos em busca de outras coisas menos importantes, como o sucesso e a fama.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Já vai tarde!
Caríssimos, recebi esse texto de um grande amigo que me pede para publicar - uma vez que estamos vivendo tempos de puro revanchismo dentro da Secretaria Municipal de Educação do Rio (local em que é proibido pensar diferente), já há 7 longos anos. É com muito orgulho e carinho que publico, certa de que a “nossa razão de viver”, profissionalmente falando, continua presente na mente dos que ousam pensar e expressar suas ideias.
Grande e esperançoso abraço a todos
Denise Vilardo
Gostaria de tentar ultrapassar o slogan “Vaza Costin”, fazendo um balanço do que representou a gestão dessa senhora frente à Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Começamos em 2009, com a posse do Prefeito Eduardo Paes (50,83% dos votos válidos, contra 49,17% do rival, Gabeira). Legitimamente, escolheu seu secretariado. Para surpresa de todos nós, professores, a escolhida para a pasta da Educação foi a senhora Claudia Costin, paulista, ex-assessora do Ministro Bresser Pereira na gestão de FHC e, posteriormente, Secretária de Cultura de São Paulo, responsável por um processo de terceirização do serviço público federal, com argumento de que esse tipo de administração é mais barato.
Essa era a herança que nos cabia. Nosso primeiro espanto pode se resumir à pergunta: numa rede de ensino reconhecidamente organizada e competente, no que diz respeito à condução do ensino público no Brasil, não havia ninguém com perfil mais adequado para gerir a educação na cidade? Por que Claudia Costin?
A resposta veio rápida. Tomou posse em janeiro de 2009 e, em fevereiro do mesmo ano, já surpreendeu a todos, mesmos os seus colaboradores mais diretos, com um projeto de 'realfabetização', liderado pela Fundação Ayrton Senna. A justificativa era de que o sistema de Ciclos de Formação, recém implantado na Rede do Rio, havia produzido zilhões de analfabetos funcionais. Seu objetivo, confesso, era tirar do analfabetismo funcional essas crianças. Correção de fluxo, diziam muitos.
Cabe lembrar que, na primeira reunião entre os “técnicos” da Fundação e os “técnicos” da SME, os representantes da Ayrton Senna mostraram-se intrigados por estarem sendo convidados para implantar algo que, segundo os mesmos, “a equipe da SME está muito melhor preparada do que nós”.
Em seguida, implantou-se o malfadado e reconhecidamente ineficaz projeto do senhor João Batista, chamado Alfa e Beto, rejeitado pela própria SME anos antes, e expulso do sistema público de ensino do município de São Gonçalo. As milhares de cartilhas compradas foram recolhidas, por ordem do Ministério Público, que acolheu denúncia feita por professores da própria Rede Municipal, sobre a inadequação das mesmas para o Município do Rio de Janeiro.
Nesse mesmo embrulho, a Sangari Brasil/Abramundo foi contratada a preço bem significativo, para qualificar o ensino de Ciências na Rede.
Logo depois, foi a vez da Fundação Roberto Marinho ser contratada para implantar projetos de correção de fluxo e aceleração para os alunos do 2º segmento do Ensino Fundamental, analfabetos e/ou defasados idade/ano de escolaridade.
O primeiro enigma logo se esclarece: terceirizar é a ordem do dia! Ou seja, contratar, por preços exorbitantes, “atualizações pedagógicas” que poderiam ser feitas pelas equipes pedagógicas da própria SME, como sempre foi feito, fortalecendo, conferindo credibilidade e valorizando os educadores da própria Rede Pública.
Outro aspecto importante na política de educação da CC é o binômio Meritocracia/Índices: o IDEB/IDERIO/ALFABETIZA. Mais uma vez, institutos foram contratados a peso de ouro para aplicar instrumentos de medida (e não de avaliação) - era o objetivo per si.
Logo a reboque, chegaram as provas únicas, como meio de “controle” e “unificação” da aprendizagem, seguidas dos cadernos pedagógicos iguais, e mais ou menos (?????) obrigatórios, para todos os alunos e professores. Ou seja: de volta aos anos sessenta.
Reconhecemos que projetos de correção de fluxo são instrumentos importantes, mas devem ser usados por um período determinado. Está há seis anos na Rede, ou seja, continua-se a produzir defasagem. Hoje, esses projetos integram a estrutura regular do sistema de ensino da SME/RJ.
Temos 9 anos de escolaridade e seis projetos, totalizando 15 níveis na estrutura. Claro que as turmas regulares, depois de seis anos de “projetos de correção de fluxo”, encontram-se muito mais ajustadas quanto à relação idade/ano de escolaridade, mas à custa de quê?
Não houve produção de qualidade efetiva. É fácil afirmar isso! Os alunos que estão matriculados nos projetos não participam das provas que servem como instrumento de medida dos índices, portanto, os alunos com maiores dificuldades são invisíveis para os índices e, consequentemente, não fazem parte das estatísticas oficiais. Resultado óbvio: maior IDEB/IDERIO. Fórmula clássica e clara. Alguns adjetivam essa perspectiva de gerir “bons” índices como fraude.
Para coroar todo esse processo quase esquizofrênico, os vereadores aprovaram, num exemplo de subserviência vergonhosa ao alcaide, um plano de carreira para o professor DITADO pelo prefeito, com as bases mais sórdidas que a história da educação dessa cidade já viu.
O magistério carioca nunca foi tão aviltado! Transformam a carreira do professor num amontoado de horas, garantindo uma estrutura de operário do século XIX. Extinguem o professor II, de 22h e meia semanais, e o professor I de, 16h. Todos serão, no futuro, professores de 40h. Não se iludam! Isso é um retrocesso funcional na carreira do magistério, até porque os vencimentos não correspondem às exigências. A perspectiva neoliberal venceu.
Depois disso tudo, muito confortavelmente, a senhora CC vai para o Banco Mundial, dizer a quê e a quem serve, já que a missão por aqui foi cumprida.
Muito mais se poderia dizer. Sua assessoria era (continua lá!) composta, na sua maioria, por profissionais detentores de Cargos Comissionados e que jamais foram professores, além de serem de fora da Rede carioca. Destacamos o Rafael Parente, que desistiu de brincar de Educopédia, e a Heloisa Mesquita, arquiteta de formação, que coordena o Ginásio Experimental Carioca (perguntamos: experimenta o quê?).
Mas, por ora, já basta. Digo, sem medo de errar: já vai tarde.
Obs.: não tenho nenhuma esperança de que as diretrizes vão mudar na condução da “nova” gestão. Conhecer essa Rede e ter participado de sua história, inclusive em outras gestões, não garante nenhuma perspectiva de mudança, ao contrário. Os “próximos” serão, certamente, mais obedientes ainda. Talvez seja esse o aspecto que mais me incomoda. Trabalhei bem de perto com a maioria das pessoas que hoje participa do grupo responsável pela condução/gestão da política de educação dessa cidade. Garanto que o grupo pensava sobre a educação de forma MUITO, MUITO, diferente. Aliás, eram verdadeiros arautos e estudiosos do sistema de Ciclos e que hoje fingem rechaçar.
- See more at: http://www.redepeabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=51601&pag=1#sthash.5BkF8lJI.dpuf
Grande e esperançoso abraço a todos
Denise Vilardo
Gostaria de tentar ultrapassar o slogan “Vaza Costin”, fazendo um balanço do que representou a gestão dessa senhora frente à Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Começamos em 2009, com a posse do Prefeito Eduardo Paes (50,83% dos votos válidos, contra 49,17% do rival, Gabeira). Legitimamente, escolheu seu secretariado. Para surpresa de todos nós, professores, a escolhida para a pasta da Educação foi a senhora Claudia Costin, paulista, ex-assessora do Ministro Bresser Pereira na gestão de FHC e, posteriormente, Secretária de Cultura de São Paulo, responsável por um processo de terceirização do serviço público federal, com argumento de que esse tipo de administração é mais barato.
Essa era a herança que nos cabia. Nosso primeiro espanto pode se resumir à pergunta: numa rede de ensino reconhecidamente organizada e competente, no que diz respeito à condução do ensino público no Brasil, não havia ninguém com perfil mais adequado para gerir a educação na cidade? Por que Claudia Costin?
A resposta veio rápida. Tomou posse em janeiro de 2009 e, em fevereiro do mesmo ano, já surpreendeu a todos, mesmos os seus colaboradores mais diretos, com um projeto de 'realfabetização', liderado pela Fundação Ayrton Senna. A justificativa era de que o sistema de Ciclos de Formação, recém implantado na Rede do Rio, havia produzido zilhões de analfabetos funcionais. Seu objetivo, confesso, era tirar do analfabetismo funcional essas crianças. Correção de fluxo, diziam muitos.
Cabe lembrar que, na primeira reunião entre os “técnicos” da Fundação e os “técnicos” da SME, os representantes da Ayrton Senna mostraram-se intrigados por estarem sendo convidados para implantar algo que, segundo os mesmos, “a equipe da SME está muito melhor preparada do que nós”.
Em seguida, implantou-se o malfadado e reconhecidamente ineficaz projeto do senhor João Batista, chamado Alfa e Beto, rejeitado pela própria SME anos antes, e expulso do sistema público de ensino do município de São Gonçalo. As milhares de cartilhas compradas foram recolhidas, por ordem do Ministério Público, que acolheu denúncia feita por professores da própria Rede Municipal, sobre a inadequação das mesmas para o Município do Rio de Janeiro.
Nesse mesmo embrulho, a Sangari Brasil/Abramundo foi contratada a preço bem significativo, para qualificar o ensino de Ciências na Rede.
Logo depois, foi a vez da Fundação Roberto Marinho ser contratada para implantar projetos de correção de fluxo e aceleração para os alunos do 2º segmento do Ensino Fundamental, analfabetos e/ou defasados idade/ano de escolaridade.
O primeiro enigma logo se esclarece: terceirizar é a ordem do dia! Ou seja, contratar, por preços exorbitantes, “atualizações pedagógicas” que poderiam ser feitas pelas equipes pedagógicas da própria SME, como sempre foi feito, fortalecendo, conferindo credibilidade e valorizando os educadores da própria Rede Pública.
Outro aspecto importante na política de educação da CC é o binômio Meritocracia/Índices: o IDEB/IDERIO/ALFABETIZA. Mais uma vez, institutos foram contratados a peso de ouro para aplicar instrumentos de medida (e não de avaliação) - era o objetivo per si.
Logo a reboque, chegaram as provas únicas, como meio de “controle” e “unificação” da aprendizagem, seguidas dos cadernos pedagógicos iguais, e mais ou menos (?????) obrigatórios, para todos os alunos e professores. Ou seja: de volta aos anos sessenta.
Reconhecemos que projetos de correção de fluxo são instrumentos importantes, mas devem ser usados por um período determinado. Está há seis anos na Rede, ou seja, continua-se a produzir defasagem. Hoje, esses projetos integram a estrutura regular do sistema de ensino da SME/RJ.
Temos 9 anos de escolaridade e seis projetos, totalizando 15 níveis na estrutura. Claro que as turmas regulares, depois de seis anos de “projetos de correção de fluxo”, encontram-se muito mais ajustadas quanto à relação idade/ano de escolaridade, mas à custa de quê?
Não houve produção de qualidade efetiva. É fácil afirmar isso! Os alunos que estão matriculados nos projetos não participam das provas que servem como instrumento de medida dos índices, portanto, os alunos com maiores dificuldades são invisíveis para os índices e, consequentemente, não fazem parte das estatísticas oficiais. Resultado óbvio: maior IDEB/IDERIO. Fórmula clássica e clara. Alguns adjetivam essa perspectiva de gerir “bons” índices como fraude.
Para coroar todo esse processo quase esquizofrênico, os vereadores aprovaram, num exemplo de subserviência vergonhosa ao alcaide, um plano de carreira para o professor DITADO pelo prefeito, com as bases mais sórdidas que a história da educação dessa cidade já viu.
O magistério carioca nunca foi tão aviltado! Transformam a carreira do professor num amontoado de horas, garantindo uma estrutura de operário do século XIX. Extinguem o professor II, de 22h e meia semanais, e o professor I de, 16h. Todos serão, no futuro, professores de 40h. Não se iludam! Isso é um retrocesso funcional na carreira do magistério, até porque os vencimentos não correspondem às exigências. A perspectiva neoliberal venceu.
Depois disso tudo, muito confortavelmente, a senhora CC vai para o Banco Mundial, dizer a quê e a quem serve, já que a missão por aqui foi cumprida.
Muito mais se poderia dizer. Sua assessoria era (continua lá!) composta, na sua maioria, por profissionais detentores de Cargos Comissionados e que jamais foram professores, além de serem de fora da Rede carioca. Destacamos o Rafael Parente, que desistiu de brincar de Educopédia, e a Heloisa Mesquita, arquiteta de formação, que coordena o Ginásio Experimental Carioca (perguntamos: experimenta o quê?).
Mas, por ora, já basta. Digo, sem medo de errar: já vai tarde.
Obs.: não tenho nenhuma esperança de que as diretrizes vão mudar na condução da “nova” gestão. Conhecer essa Rede e ter participado de sua história, inclusive em outras gestões, não garante nenhuma perspectiva de mudança, ao contrário. Os “próximos” serão, certamente, mais obedientes ainda. Talvez seja esse o aspecto que mais me incomoda. Trabalhei bem de perto com a maioria das pessoas que hoje participa do grupo responsável pela condução/gestão da política de educação dessa cidade. Garanto que o grupo pensava sobre a educação de forma MUITO, MUITO, diferente. Aliás, eram verdadeiros arautos e estudiosos do sistema de Ciclos e que hoje fingem rechaçar.
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segunda-feira, 9 de julho de 2012
Sobre o Projeto de Lei 267/11*
Aceitei a proposta de reflexão sobre a alteração do ECA, no que diz respeito à punição legal/policial para os alunos violentos e desrespeitosos.
Vamos por partes...
Como não caminho sozinha, trago, em princípio o Bernardo Toro, quando diz que: "Não é possível pensar em sociedade sustentável com uma Educação para os nossos filhos e outra para os filhos dos outros."
Aos colegas que gostaram da intenção de termos policiais dentro das escolas para disciplinar os alunos com a lei, penso que só corroboram com a ideia porque ela trata dos filhos dos outros. É difícil aceitar uma situação dessas na escola em que nossos filhos estudam...
Em seguida, leio uma entrevista com Michael Barber (conselheiro na área de Educação e ex assessor de Tony Blair no MEC britânico) em que ele diz o seguinte: "As pessoas precisam escolher seguir a carreira de professor, e não virar um deles apenas porque não tinham nada melhor para fazer". E eu acrescento: além de acreditarem que fazer qualquer licenciatura, ao invés do bacharelado, ou mesmo o curso de Pedagogia, é mais fácil e rápido.
Infelizmente, a grande maioria dos profissionais do ensino com os quais lidamos diariamente, faz parte desse grupo. Infelizmente, vivemos uma situação legítima que é a necessidade de nos formarmos rapidamente, para poder entrar no mercado de trabalho (sic!) e começar a nossa vida profissional o mais cedo possível. É uma questão de sobrevivência. Sabemos que é difícil um professor ficar sem trabalho. Pagam pouco nos colégios particulares, não respeitam as obrigações trabalhistas, mas sempre há vagas... na rede pública, o descaso é o mesmo, mas sempre tem concurso pro magistério. E quando tudo isso falhar, podemos oferecer "aulas de reforço" pra vizinhança.
A esses dois pontos acrescento a questão - que já foi citada aqui na lista, nesta reflexão - por que é que precisamos de interferência externa para administrar o que é o nosso fazer interno, cotidiano? Por que é que é precisamos de leis para estabelecer o que é certo, errado, adequado, não adequado, aceitável, não aceitável na nossa rotina de trabalho? Por que é que precisamos transferir uma responsabilidade que é nossa para a tutela do Estado?
Algumas tentativas de resposta: porque acreditamos que a educação deve vir de casa... porque professor não é psicólogo... porque os alunos vêm para escola e não querem nada... porque os alunos não entendem que têm que ficar quietos na hora de ficar quietos, e só falar quando lhes for dada essa condição... porque nós não ganhamos para isso... pra ficar estressados e nem para lidar com marginais...
Será que já ouvimos essas "verdades" por aí? Pois, na contramão dessa realidade recheada de senso comum, peço a companhia do Frei Betto que diz que "Falta à escola abordar o sentido da existência." E afirmo que não é fácil, mas essa é a nossa tarefa, pessoal e intransferível. Esse é o nosso fazer profissional: ajudar a formar seres humanos. Seres humanos de verdade, daqueles que falam, riem, conversam, têm dor de cabeça, caganeira, choram, ficam com raiva, daqueles iguaizinhos a nós mesmos.
Temos que ser psicólogos sim, um pouco mães, um pouco pais, às vezes, pacientes, outras, impacientes. Somos educadores do/no Brasil, fazendo história e nos reconciliando com meninos e meninas que vivem castigados pela vida, por esse país afora.
Não somos repassadores de conteúdos cristalizados. Somos pessoas adultas numa relação de dar as mãos e caminhar juntos, de ensinar e aprender juntos. Não dá pra burocratizar a relação professor com aluno. Entrar na escola, cumprimentar ou não os colegas, ir para a sala de aula, já pensando na hora de ir embora para fazer coisas mais importantes...
Digo sempre para os meus professores e alunos que Escola não é lugar de violência de qualquer espécie: física, moral, psicológica; assim como não é lugar de medo. Quem quiser sentir essas emoções, que frequente delegacias, presídios e quartéis.
Da mesma maneira que Escola não é lugar de silêncio. Lugar de silêncio é hospital e locais de meditação.
Escola não é lugar de nãos absolutos, mas justificáveis; Escola não é lugar de regras desprovidas de sentido compartilhado por todos.
Escola é lugar de sins, de acolhimento, de imperfeições, de constantes ajustes, de acordos e combinados.
Mas, vou contar um segredo: tem que querer ser professor, educador, formador, mediador - o nome que queiram dar.
E mais: tem que querer olhar nos olhos e ser verdadeiro, sem medo de errar e sem nojo de meleca, catarro, cheiro de mijo ou de maconha. Tem que gostar de pessoas e de ficar perto delas, com elas.
Não abro mão de estar junto com meus alunos e professores, pois escolhi ser professora, que é diferente de ser missionária... É minha profissão, e requer, estudo e técnica, em constante aperfeiçoamento para praticar melhor. Requer salário e dignidade.
Requer que eu mesma me dê esse crédito.
Um grande e fraterno abraço
*A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 267/11, da deputada Cida Borghetti (PP-PR), que estabelece punições para estudantes que desrespeitarem professores ou violarem regras éticas e de comportamento de instituições de ensino.
Em caso de descumprimento, o estudante infrator ficará sujeito a suspensão e, na hipótese de reincidência grave, encaminhamento à autoridade judiciária competente. A proposta muda o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90) para incluir o respeito aos códigos de ética e de conduta como responsabilidade e dever da criança e do adolescente na condição de estudante.
Indisciplina De acordo com a autora, a indisciplina em sala de aula tornou-se algo rotineiro nas escolas brasileiras e o número de casos de violência contra professores aumenta assustadoramente. Ela diz que, além dos episódios de violência física contra os educadores, há casos de agressões verbais, que, em muitos casos, acabam sem punição. O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões de Seguridade Social e Família; de Educação e Cultura; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Vamos por partes...
Como não caminho sozinha, trago, em princípio o Bernardo Toro, quando diz que: "Não é possível pensar em sociedade sustentável com uma Educação para os nossos filhos e outra para os filhos dos outros."
Aos colegas que gostaram da intenção de termos policiais dentro das escolas para disciplinar os alunos com a lei, penso que só corroboram com a ideia porque ela trata dos filhos dos outros. É difícil aceitar uma situação dessas na escola em que nossos filhos estudam...
Em seguida, leio uma entrevista com Michael Barber (conselheiro na área de Educação e ex assessor de Tony Blair no MEC britânico) em que ele diz o seguinte: "As pessoas precisam escolher seguir a carreira de professor, e não virar um deles apenas porque não tinham nada melhor para fazer". E eu acrescento: além de acreditarem que fazer qualquer licenciatura, ao invés do bacharelado, ou mesmo o curso de Pedagogia, é mais fácil e rápido.
Infelizmente, a grande maioria dos profissionais do ensino com os quais lidamos diariamente, faz parte desse grupo. Infelizmente, vivemos uma situação legítima que é a necessidade de nos formarmos rapidamente, para poder entrar no mercado de trabalho (sic!) e começar a nossa vida profissional o mais cedo possível. É uma questão de sobrevivência. Sabemos que é difícil um professor ficar sem trabalho. Pagam pouco nos colégios particulares, não respeitam as obrigações trabalhistas, mas sempre há vagas... na rede pública, o descaso é o mesmo, mas sempre tem concurso pro magistério. E quando tudo isso falhar, podemos oferecer "aulas de reforço" pra vizinhança.
A esses dois pontos acrescento a questão - que já foi citada aqui na lista, nesta reflexão - por que é que precisamos de interferência externa para administrar o que é o nosso fazer interno, cotidiano? Por que é que é precisamos de leis para estabelecer o que é certo, errado, adequado, não adequado, aceitável, não aceitável na nossa rotina de trabalho? Por que é que precisamos transferir uma responsabilidade que é nossa para a tutela do Estado?
Algumas tentativas de resposta: porque acreditamos que a educação deve vir de casa... porque professor não é psicólogo... porque os alunos vêm para escola e não querem nada... porque os alunos não entendem que têm que ficar quietos na hora de ficar quietos, e só falar quando lhes for dada essa condição... porque nós não ganhamos para isso... pra ficar estressados e nem para lidar com marginais...
Será que já ouvimos essas "verdades" por aí? Pois, na contramão dessa realidade recheada de senso comum, peço a companhia do Frei Betto que diz que "Falta à escola abordar o sentido da existência." E afirmo que não é fácil, mas essa é a nossa tarefa, pessoal e intransferível. Esse é o nosso fazer profissional: ajudar a formar seres humanos. Seres humanos de verdade, daqueles que falam, riem, conversam, têm dor de cabeça, caganeira, choram, ficam com raiva, daqueles iguaizinhos a nós mesmos.
Temos que ser psicólogos sim, um pouco mães, um pouco pais, às vezes, pacientes, outras, impacientes. Somos educadores do/no Brasil, fazendo história e nos reconciliando com meninos e meninas que vivem castigados pela vida, por esse país afora.
Não somos repassadores de conteúdos cristalizados. Somos pessoas adultas numa relação de dar as mãos e caminhar juntos, de ensinar e aprender juntos. Não dá pra burocratizar a relação professor com aluno. Entrar na escola, cumprimentar ou não os colegas, ir para a sala de aula, já pensando na hora de ir embora para fazer coisas mais importantes...
Digo sempre para os meus professores e alunos que Escola não é lugar de violência de qualquer espécie: física, moral, psicológica; assim como não é lugar de medo. Quem quiser sentir essas emoções, que frequente delegacias, presídios e quartéis.
Da mesma maneira que Escola não é lugar de silêncio. Lugar de silêncio é hospital e locais de meditação.
Escola não é lugar de nãos absolutos, mas justificáveis; Escola não é lugar de regras desprovidas de sentido compartilhado por todos.
Escola é lugar de sins, de acolhimento, de imperfeições, de constantes ajustes, de acordos e combinados.
Mas, vou contar um segredo: tem que querer ser professor, educador, formador, mediador - o nome que queiram dar.
E mais: tem que querer olhar nos olhos e ser verdadeiro, sem medo de errar e sem nojo de meleca, catarro, cheiro de mijo ou de maconha. Tem que gostar de pessoas e de ficar perto delas, com elas.
Não abro mão de estar junto com meus alunos e professores, pois escolhi ser professora, que é diferente de ser missionária... É minha profissão, e requer, estudo e técnica, em constante aperfeiçoamento para praticar melhor. Requer salário e dignidade.
Requer que eu mesma me dê esse crédito.
Um grande e fraterno abraço
*A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 267/11, da deputada Cida Borghetti (PP-PR), que estabelece punições para estudantes que desrespeitarem professores ou violarem regras éticas e de comportamento de instituições de ensino.
Em caso de descumprimento, o estudante infrator ficará sujeito a suspensão e, na hipótese de reincidência grave, encaminhamento à autoridade judiciária competente. A proposta muda o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90) para incluir o respeito aos códigos de ética e de conduta como responsabilidade e dever da criança e do adolescente na condição de estudante.
Indisciplina De acordo com a autora, a indisciplina em sala de aula tornou-se algo rotineiro nas escolas brasileiras e o número de casos de violência contra professores aumenta assustadoramente. Ela diz que, além dos episódios de violência física contra os educadores, há casos de agressões verbais, que, em muitos casos, acabam sem punição. O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões de Seguridade Social e Família; de Educação e Cultura; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Celeste e a Geografia
Sem duvidar da legitimidade dos argumentos que levaram e levam os profissionais da educação a fazerem greves, creio que esta é uma estratégia que já não frutifica há tempos.
Ou melhor, frutifica sempre para o lado negativo da questão. Quem perde é sempre o aluno.
As greves deram algum resultado, no âmbito da melhoria salarial, quando elas ainda pressionavam os governantes que, não sabendo lidar com a situação, ficavam assustados com o fato dos professores estarem se fortalecendo pela união.
Mas... isso foi no final dos anos 70 e início dos 80. De lá pra cá, não lembro de greve que tenha tido resultados significativos no bolso dos professores. Ao contrário, têm servido para o governo economizar luz, gás, telefone e merenda.
Quanto às outras reivindicações que sempre vêm no bojo das campanhas, e que sugerem melhorias em outros âmbitos, e que envolvem a qualidade do trabalho, essas, então, nunca são alcançadas.
Para não ser radical de vez, lembro que, no município do Rio de Janeiro, ainda na década de 80, os professores reivindicaram horário de Centros de Estudos, dentro da carga horária regular, no que fomos atendidos. Mas, infelizmente, os próprios professores esqueceram que essa havia sido uma demanda própria e passaram a lidar com esse horário como sendo uma “obrigação” implantada pelos dirigentes e, salvo algumas honrosas iniciativas de poucas escolas, esse horário perdeu o sentido acadêmico e político.
É preciso reconhecer que a greve não funciona como forma de pressão. O fato de alunos das classes populares ficarem sem aulas, o que significa ficarem sem aprendizagem formal, sem talvez a única possibilidade de contato com o mundo do conhecimento organizado, não sensibiliza a sociedade.
Digo isso com tristeza e constrangimento.
É tempo de pensar em novas estratégias e que, a meu ver, começam dentro das salas de aulas e se expandem para as famílias dos alunos. Os alunos e suas famílias são os únicos que sentem falta da escola, mas não têm voz.
E os próprios educadores têm que valorizar o seu trabalho, para além dos R$ da hora aula, e se assenhorar da sua importância não apenas no estrito processo educativo, mas na importância da sua participação na formação da vida dos alunos, na sua ação política que deve reverberar em cada canto da sua sala de aula e ganhar força dentro e fora das escolas.
O que não podemos perder de vista é que a cada aula não realizada, perdemos mais uma oportunidade de sermos relevantes para a vida de nossos alunos. Talvez isso não faça diferença para alguns professores, mas certamente faz para os alunos.
Me lembrei de uma crônica, do saudoso Fritz Utzeri, de 2002, e que transcrevo aqui.
Celeste e a Geografia
“(...) Da professora Isabel Penteado recebo carta: ‘Entre os vários artigos seus que leio, recorto e divulgo, está o ‘Quadro Negro’. Levei para o curso de Inglês onde trabalho. Apesar de lidarmos com a ‘nata da nata’, temos consciência do rola por aí. Já ensinei em escola municipal e sei como é. Uma colega que ensina Português, leu o seu artigo e trouxe uma cópia de uma redação. Segundo ela, o texto foi escrito por uma jovem incapaz de fazer uma prova de Geografia, porque desconhecia a matéria. No lugar da prova fez esse manifesto – desabafo – obra-prima como relato de nossa triste realidade social.’ Ei-lo:
‘Tentei resolver a prova, mas infelizmente após ter concluído o segundo grau no CIEP Mário de Andrade me caiu a ficha de que não faço parte da elite, sou apenas mais uma jovem ‘recém-diplomada’ pela rede pública de educação, como tantos milhares que ficaram reprovados neste exame. Realmente não tenho condições de passar por essa enorme barreira que me separa do sonho de ser médica, mas infelizmente não tenho dinheiro para pagar um cursinho, nem tive para bons colégios. Nem ferramentas para a batalha eu tive, pois após a falta de tempo e boa vontade dos professores, constatei também a falta de livros nas bibliotecas. Por que você não faz uma estatística para saber quantos estão na minha situação, morrendo de sede com uma cachoeira à frente?
O quanto eu sonhei com este dia do vestibular. A chance de um futuro melhor, de dar uma vida melhor a minha mãe, de dar conforto, de ter conforto. Aí eu me defrontei com um enorme muro de concreto, chamado ignorância, que me foi passado em 12 anos de ensino público, talvez não corresponda a seis do particular. Talvez eu tenha me deslumbrado com o fato de sempre ter sido chamada de boa aluna, mas não sabia que aquilo não era nem o trivial, por isso me aventurei e tirei 4,5 em Redação, um bom começo para quem conhecia parte da dificuldade. Agora estou triste, vejo o quanto me falta saber, o quanto está longe de mim o conhecimento.
Se chegou até aqui, obrigada pela atenção, talvez pela compreensão em saber que longe do seu mundo, do lado de fora da festa, existe mais alguém que almeja chegar, entrar e fazer parte do pequeno número de pessoas, das contáveis, pessoas que podem, que possuem condições reais de ter uma profissão.’
Celeste, esse é o nome da adolescente que desabafou nas folhas da prova de Geografia, é extremamente articulada e pelo menos não foi traída por seu professor de Português. Mas seu relato sem esperanças, a barreira que a impede de realizar o sonho de ser médica é um exemplo claro de como o Brasil joga fora vidas que ainda estão começando, mata talentos que, se tivessem oportunidades, contribuiriam para resolver os problemas que os políticos parecem desprezar. (...)”
Trecho adaptado de crônica de Fritz Utzeri, jornalista, para o Jornal do Brasil, em 19/05/02.
Ou melhor, frutifica sempre para o lado negativo da questão. Quem perde é sempre o aluno.
As greves deram algum resultado, no âmbito da melhoria salarial, quando elas ainda pressionavam os governantes que, não sabendo lidar com a situação, ficavam assustados com o fato dos professores estarem se fortalecendo pela união.
Mas... isso foi no final dos anos 70 e início dos 80. De lá pra cá, não lembro de greve que tenha tido resultados significativos no bolso dos professores. Ao contrário, têm servido para o governo economizar luz, gás, telefone e merenda.
Quanto às outras reivindicações que sempre vêm no bojo das campanhas, e que sugerem melhorias em outros âmbitos, e que envolvem a qualidade do trabalho, essas, então, nunca são alcançadas.
Para não ser radical de vez, lembro que, no município do Rio de Janeiro, ainda na década de 80, os professores reivindicaram horário de Centros de Estudos, dentro da carga horária regular, no que fomos atendidos. Mas, infelizmente, os próprios professores esqueceram que essa havia sido uma demanda própria e passaram a lidar com esse horário como sendo uma “obrigação” implantada pelos dirigentes e, salvo algumas honrosas iniciativas de poucas escolas, esse horário perdeu o sentido acadêmico e político.
É preciso reconhecer que a greve não funciona como forma de pressão. O fato de alunos das classes populares ficarem sem aulas, o que significa ficarem sem aprendizagem formal, sem talvez a única possibilidade de contato com o mundo do conhecimento organizado, não sensibiliza a sociedade.
Digo isso com tristeza e constrangimento.
É tempo de pensar em novas estratégias e que, a meu ver, começam dentro das salas de aulas e se expandem para as famílias dos alunos. Os alunos e suas famílias são os únicos que sentem falta da escola, mas não têm voz.
E os próprios educadores têm que valorizar o seu trabalho, para além dos R$ da hora aula, e se assenhorar da sua importância não apenas no estrito processo educativo, mas na importância da sua participação na formação da vida dos alunos, na sua ação política que deve reverberar em cada canto da sua sala de aula e ganhar força dentro e fora das escolas.
O que não podemos perder de vista é que a cada aula não realizada, perdemos mais uma oportunidade de sermos relevantes para a vida de nossos alunos. Talvez isso não faça diferença para alguns professores, mas certamente faz para os alunos.
Me lembrei de uma crônica, do saudoso Fritz Utzeri, de 2002, e que transcrevo aqui.
Celeste e a Geografia
“(...) Da professora Isabel Penteado recebo carta: ‘Entre os vários artigos seus que leio, recorto e divulgo, está o ‘Quadro Negro’. Levei para o curso de Inglês onde trabalho. Apesar de lidarmos com a ‘nata da nata’, temos consciência do rola por aí. Já ensinei em escola municipal e sei como é. Uma colega que ensina Português, leu o seu artigo e trouxe uma cópia de uma redação. Segundo ela, o texto foi escrito por uma jovem incapaz de fazer uma prova de Geografia, porque desconhecia a matéria. No lugar da prova fez esse manifesto – desabafo – obra-prima como relato de nossa triste realidade social.’ Ei-lo:
‘Tentei resolver a prova, mas infelizmente após ter concluído o segundo grau no CIEP Mário de Andrade me caiu a ficha de que não faço parte da elite, sou apenas mais uma jovem ‘recém-diplomada’ pela rede pública de educação, como tantos milhares que ficaram reprovados neste exame. Realmente não tenho condições de passar por essa enorme barreira que me separa do sonho de ser médica, mas infelizmente não tenho dinheiro para pagar um cursinho, nem tive para bons colégios. Nem ferramentas para a batalha eu tive, pois após a falta de tempo e boa vontade dos professores, constatei também a falta de livros nas bibliotecas. Por que você não faz uma estatística para saber quantos estão na minha situação, morrendo de sede com uma cachoeira à frente?
O quanto eu sonhei com este dia do vestibular. A chance de um futuro melhor, de dar uma vida melhor a minha mãe, de dar conforto, de ter conforto. Aí eu me defrontei com um enorme muro de concreto, chamado ignorância, que me foi passado em 12 anos de ensino público, talvez não corresponda a seis do particular. Talvez eu tenha me deslumbrado com o fato de sempre ter sido chamada de boa aluna, mas não sabia que aquilo não era nem o trivial, por isso me aventurei e tirei 4,5 em Redação, um bom começo para quem conhecia parte da dificuldade. Agora estou triste, vejo o quanto me falta saber, o quanto está longe de mim o conhecimento.
Se chegou até aqui, obrigada pela atenção, talvez pela compreensão em saber que longe do seu mundo, do lado de fora da festa, existe mais alguém que almeja chegar, entrar e fazer parte do pequeno número de pessoas, das contáveis, pessoas que podem, que possuem condições reais de ter uma profissão.’
Celeste, esse é o nome da adolescente que desabafou nas folhas da prova de Geografia, é extremamente articulada e pelo menos não foi traída por seu professor de Português. Mas seu relato sem esperanças, a barreira que a impede de realizar o sonho de ser médica é um exemplo claro de como o Brasil joga fora vidas que ainda estão começando, mata talentos que, se tivessem oportunidades, contribuiriam para resolver os problemas que os políticos parecem desprezar. (...)”
Trecho adaptado de crônica de Fritz Utzeri, jornalista, para o Jornal do Brasil, em 19/05/02.
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