domingo, 11 de outubro de 2015

Pesquisa mostra dados alarmantes de corrupção entre alunos nas escolas

Essa semana (de 05 de outubro de 2015) apresentaram uma matéria no Canal Globo News, com a seguinte manchete: “Pesquisa mostra dados alarmantes de corrupção entre alunos nas escolas”.

E seguem explicando que uma universidade do Rio de Janeiro entrevistou 1.100 alunos do Ensino Médio e Superior, com idades que variam de 16 a 30 anos e obteve os tais dados alarmantes.

A primeira questão que se apresenta é se esses dados são mesmo alarmantes. Quem está alarmado com eles? Como chamar de alarmantes algo que é corriqueiro em todas as instituições escolares - desde tempos imemoriais?

Então, a minha primeira implicância é chamar de alarmante, algo que definitivamente não é. Todos estão bastante acostumados com a rotina pesquisada. É uma inadequação linguística, em que se tira toda a força da palavra e do que significa ser realmente alarmante.

Creio que os jornalistas responsáveis simplesmente estão tirando proveito de que “está na moda falar em corrupção” e resolveram criar uma “cultura da corrupção” que começa nos bancos escolares.

(É a mesma lógica que tenta determinar que as pessoas que fazem xixi nas ruas, o fazem porque é natural do brasileiro, é uma atitude cultural... como ocorreu nessa mesma semana, na Revista O Globo).

Enfim, vamos aos dados da pesquisa.

58% dos alunos já pediram para colocar nome em trabalho de grupo sem ter participado da produção do mesmo.

Pergunta-se: o que você faria se o professor passasse um trabalho de grupo para a sua turma e você soubesse, de antemão, que ele sequer seria corrigido e só serviria para melhorar a sua nota, caso o seu nome estivesse lá?

68% dos alunos já copiaram textos da internet para apresentar em trabalhos.

Pergunta-se: o que você faria se o professor passasse um trabalho de grupo para a sua turma e você soubesse, de antemão, que ele sequer seria corrigido e só serviria para melhorar a sua nota, caso o seu nome estivesse lá?


59% dos alunos já assinaram a lista de presença em nome do colega.

Pergunta-se: o que você faria se, para o sistema escolar, o que importa é a marcação da sua presença, porque se você estiver lá, presentemente, fazendo perguntas e participando estará “atrapalhando” a aula?

69% dos alunos já colaram em provas.

Pergunta-se: o que você faria se, para o sistema escolar, o que importa e é valorizado é a nota para você passar de ano?

Certo, certo, que fique claro que não considero a atitude dos estudantes louvável. Mas merece uma análise contextualizada. As coisas não acontecem por acaso, nem surgem do nada, porque esse é bonzinho e aquele é mauzinho...

Não! As coisas se revelam e se perpetuam a partir de uma história que fica sempre, no caso das instituições escolares, hipocritamente escondidas.

Simplesmente, não se concebe mais a escola do jeito que ainda continua sendo! E não é a tecnologia que vai salvá-la num discurso de pseudo modernidade.

Alunos deixarão de ser “alarmantemente corruptos” quando a escola deixar de ser um local em que se idiotizam pessoas.

A escola – e, evidentemente, os professores – tem que estar um passo à frente dos alunos. Isso significa:

1. Trabalhos em grupo devem ser envolventes, de preferência feitos na própria escola – inclusive na universidade - , desafiadores e cada pessoa participante deverá expressar de alguma maneira a sua participação; atenção: a partir de uma proposta, os alunos de um mesmo grupo podem e devem discordar e apresentar também essa discordância.
Além disso, os professores costumam ter, no mínimo, 8 turmas por período letivo. Cada turma com uma média de 30 alunos. Ou seja, os trabalhos e provas de 240 alunos – semanalmente – vão se acumulando, porque não há quem consiga viver para corrigir trabalhos e provas, além de planejar, participar de reuniões etc.

2. Copiar texto da internet acontece da mesma maneira que íamos à Biblioteca Nacional copiar trechos inteiros de enciclopédias... Primeiro ponto: os professores aceitam os trabalhos copiados porque querem. É muito fácil perceber quando o texto não é do aluno. Segundo ponto: se, mais uma vez, o trabalho proposto for para o aluno pensar sobre e algo e dar a sua opinião, ou uma solução para uma determinada situação, por exemplo, não vai dar pra copiar... Mas se a proposta for: pesquise sobre o período colonial brasileiro... a resposta vai ser copiada. Com louvor!


3. Se abolirmos a lista de presença, tornando a participação dos alunos mais efetiva e realmente valiosa, não haverá necessidade desse tipo de controle industrial. Vamos lembrar que estamos falando de Ensino Médio (acima de 15 anos) e Ensino Superior (acima de 17). Como as instituições pretendem formar pessoas conscientes, autônomas e responsáveis se continuam tutelando as suas ações? Por que os alunos não podem agir com franqueza e respeito, dizendo que não vieram à aula porque dormiram demais em determinado dia? Por que não se estimula a autorregulação das pessoas que estão se tornando adultas? Por que os alunos que tentam dizer que a aula está chata e sugerem que os professores mudem a sua metodologia são considerados inconvenientes?

4. Se abolirmos as provas e testes como únicas maneiras de se avaliar os alunos, essa atitude será suficiente para que parem de colar. Não fará sentido ir para escola apenas para receber nota e passar de ano. A escola, hipócritamente, diz que os alunos não querem nada, mas nada é oferecido além do que se fazia no início do século XX. Alunos sentados, comportados e professor lá na frente falando, falando, falando... ou passando algum power point horroroso... Ao, final, verifica-se quem tem melhor memória. Com todo os estudos a respeito dos atos de aprender e ensinar, já sabemos, há muito tempo, que provas não avaliam coisa alguma. Não avaliam se houve ou não aprendizagem. Vamos lembrar de nós mesmos, realizando provas, e saindo decepcionados, porque na hora “deu um branco” e nos esquecemos de tudo... Avaliações são processuais, de diferentes em tipos (sim, pode e deve haver prova, sim, mas não apenas), em diferentes situações: individuais, em grupos, escritas, desenhadas, orais etc.


E aí sempre aparece alguém para dizer: mas como é que ficam o ENEM, os vestibulares, os concursos??? Vamos lá: instigar os alunos a pensarem criticamente, criar soluções, produzir para a sociedade é tarefa das instituições escolares e universidades, porque são locais de formação de pessoas na vida e para a vida. Quer fazer concurso? Quer se preparar para uma prova? Certo, esse é o departamento de cursinhos preparatórios, estudo em grupo e outros etecéteras. Ou seja: vamos falar de uma educação, de uma escola que transforma, e não um local de instrução que apenas reproduz o que já existe. O que já existe, conhecemos e não é bom.


Enfim, continuo não enxergando nada de alarmante nas atitudes dos alunos. Eles agem exatamente respondendo ao que se espera deles. São portanto, saudáveis e muito mais inteligentes do que possamos imaginar. Para uma instituição medíocre, vamos agir mediocremente.



http://globotv.globo.com/globonews/estudio-i/v/pesquisa-mostra-dados-alarmantes-de-corrupcao-entre-alunos-nas-escolas/4527209/

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Lei obriga aluno que não se comporta a lavar o banheiro da escola

Quer dizer que as pessoas que trabalham para viver, limpando os locais que habitamos e frequentamos são diariamente castigadas. É isso?

Essa á maneira de conscientizar e formar os cidadãos? Há temos não vejo nada tão idiota. Pior, virou Lei. Tem juiz defendendo a medida!!! É a total incapacidade da instituição escolar de lidar com seus alunos. O nome disso é MALUQUICE! Os adultos deveriam estar todos internados. E, caso não se comportassem, teriam que lavar os banheiros... PQP!

"Projeto piloto foi desenvolvido em escola municipal de Campo Grande (MS).
Antes, casos de indisciplina levavam até 1 ano para ter uma decisão judicial."

Em Campo Grande, uma escola municipal resolveu mudar a forma de chamar a atenção de alunos que não se comportam. E esse projeto acabou virando lei para todos os colégios da cidade.

O adolescente, que já fez da escola um ringue de luta, disse que não aguentou a provocação de um colega. “Na hora eu tava estressado, ele continuava e eu fui pra cima dele, sem pensar”, contou o adolescente.

A agressão custou caro. “Limpei banheiro, passei rodo no pátio”, disse o aluno. E não adiantou reclamar para a mãe. “Eu assino embaixo, para mim não tem problema nenhum. Ele tem que rever o que ele fez”, disse a mãe do adolescente.

Punir alunos com problema de indisciplina faz parte da realidade de uma escola há cinco anos. O projeto piloto desenvolvido lá deu tão certo que virou lei municipal. Agora, todas as instituições de ensino de Campo Grande são obrigadas a aplicar medidas educativas para quem comete alguma infração no ambiente escolar.

O projeto é uma iniciativa da Promotoria da Infância e Juventude. Antes, os casos de indisciplina levavam até um ano para ter uma decisão judicial, hoje não.

“Dentro desse programa, com a força dessa lei, nós aplicamos quase que imediatamente, dentro de 48 horas, no máximo, o aluno está sendo levado a uma ação pedagógica, para reparar esse dano”, afirmou Sérgio Harfouch, promotor da Infância e Juventude.

Na escola Ada Teixeira, a palavra "dano" já foi excluída do vocabulário.

“Não tem mais briga, não picha mais a escola, não agride professor”, contou o aluno.

“Está mais equilibrado o comportamento dos alunos”, disse outra estudante.

“O aluno hoje respeita a escola, o aluno se respeita, os pais respeitam a instituição, então nós temos uma tranquilidade muito grande em relação a isso”, afirmou Valson Campos Dos Anjos, diretor da escola.

Quem já chegou a levar até bebida alcoólica na escola que o diga. “Eu pensava que podia tudo, agora eu sei que tem um limite. Qualquer coisa que eu fizer errado, eu tenho que pagar pelo o que eu fiz”, disse o aluno.

A punição ainda ajudou o jovem a se livrar da bebida. A mãe agradece. “O aluno cometer um erro e não pagar por aquilo, isso sim é grave. Mas se ele cometeu um erro e ele está pagando, ele está refletindo sobre aquilo, ele vai ter a oportunidade de aprender. Deveriam todas as escolas fazerem isso”, falou a mãe do aluno que levou bebida alcoólica para a escola."


Fonte: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/09/lei-obriga-aluno-que-nao-se-comporta-lavar-o-banheiro-da-escola.html

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Oito coisas que aprendi com a educação na Finlândia

Estou verdadeiramente chocada com o fato de professores de Institutos Federais brasileiros desconhecerem as "oito coisas" que dizem ter aprendido na Finlândia. Pena , não precisavam ter saído do Brasil.

Aqui já fazemos e divulgamos "coisas" muito mais atualizadas do que os finlandeses.

Por que é tão difícil compreender que não precisamos importar modelo algum de fora do nosso país?

Por que é tão difícil compreender que o melhor para o Brasil é o que é feito pelos brasileiros? Gostaria de saber se os professores que viajaram já tentaram conhecer os MUITOS projetos educacionais que se encontram espalhados pelo país todo.

Se conhecem as propostas curriculares de alguns Estados e de algumas prefeituras que são absolutamente interessantes e eficazes?

Se conhecem educadores, pedagogos e pesquisadores brasileiros que apresentam ideias consequentes e apropriadas ao nosso país? Tô achando que, sinceramente, não.


E, pra piorar, a Educação brasileira aqui é tão desrespeitada pela mídia, que os professores foram a Finlândia para aprenderem 8 coisas... Não foram princípios, diretrizes, metodologias etc. Nada. Foram coisas inomináveis. Nenhum grupo de economistas ou engenheiros ganharia uma manchete dessa.



terça-feira, 21 de julho de 2015

Vocês leram isso hoje?

Tá aqui, http://oglobo.globo.com/opiniao/o-patrono-da-educacao-brasileira-16848457, mas resolvi responder no próprio texto do colunista.

Gostaria de enviar para o jornal em questão, mas não consigo por causa do tamanho. Peço, então que, caso concordem comigo, ma ajudem a divulgar.

Grande e Agradecido abraço

Denise



O patrono da educação brasileira


Os americanos têm como ícones Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, John Adams e George Washington. Já o Brasil encontrou em Paulo Freire uma grande inspiração. Cada povo tem o herói que merece


Interessante... Não vi nenhum educador americano dentre os citados. Estamos comparando laranjas com bicicletas? Por aqui tivemos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Médici, Sarney e Collor.




Uma das formas de se analisar uma sociedade é ver quem são seus heróis. Os americanos, por exemplo, têm nos “pais fundadores” grandes ícones, gente como Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, John Adams e George Washington. Já o Brasil encontrou em Paulo Freire uma grande inspiração, a ponto de transformá-lo no “patrono” de nossa educação. Cada povo tem o herói que merece.


Concordo plenamente com a primeira frase, mas continuamos comparando tecidos com poemas.


Creio que cada povo tem o herói que pode ter, de acordo com o seu contexto histórico cultural e suas necessidades. Podemos pedir a algum professor de História para nos ajudar nessa tarefa. Pelo raciocínio do colunista, nossos heróis deveriam ser Deodoro da Fonseca, Prudente de Morais etc. É isso?



Pergunto ao leitor: já leu algum livro de Freire? É um exercício e tanto de paciência. Seu linguajar é enfadonho, diz algumas coisas um tanto óbvias de forma aparentemente profunda, que revela apenas uma mente confusa, e usa a “pedagogia” para, no fundo, pregar o marxismo radical. Foi seu grande “mérito”: levar Marx para dentro das salas de aula.


A leitura de Paulo Freire pode ser realmente enfadonha para quem não é da área. A crítica é quanto ao estilo do educador? Para os professores, Paulo Freire foi o primeiro a dizer com todas as letras o que era necessário ser dito. É repetitivo, sim, para que as ideias fiquem bem claras. Quanto a dizer coisas óbvias, aparentemente profundas... Vamos lembrar que, quando Paulo Freire começou a divulgar os seus escritos, estávamos na década de 60. Certamente, naquele momento, não era nada óbvio falar que a Educação deveria ser para todos. Pela legislação brasileira, a universalização da escolaridade, começou em meados dos anos 70. Até então, apenas os filhos da elite frequentavam a escola pública. Gostaria que o colunista explicitasse melhor o que considera coisas aparentemente profundas. Por favor, aprofunde. Mente confusa? O colunista resolveu fazer uma análise terapêutica do modo de pensar e expressar ideias do Paulo Freire?


Levar as ideias marxistas para as salas de aula era o que havia de mais sensato e necessário a ser feito naquele momento histórico. A Educação deve, sim, se apropriar da sua função política (de polis, de cidadania) e formar cidadãos que transformem a sociedade e não apenas a reproduzam.


Seu ponto de vista é o dos “excluídos”, diz ele, monopolizando as virtudes e os fins nobres. Somente quem endossa seu viés “progressista” quer o bem dos mais pobres. O restante, os “neoliberais”, esses querem apenas manter o status quo, preservar um sistema opressor. São pessoas ruins. E contra eles, os “oprimidos” devem se rebelar, lutar pela utopia igualitária.


Sim, é exatamente isso, também. O colunista compreendeu parte da ideologia freiriana. Volto a lembrar que opinar sem levar em conta o contexto histórico, é apenas leviano. A luta pela utopia igualitária permanece firme até o dias de hoje, ou o colunista acha que está tudo muito bem, obrigado? O colunista acredita que exista ação que não seja política? Não estou falando de partidos, mas de consciência do que significa fazer parte de um grupo, urbano, ou não, mas que claramente existem classes que mandam e classes que obedecem. E nenhuma ação política é isenta de ideologia (juro que pensei que isso fosse ensinado nas faculdades de economia).




Era dada a justificativa para que professores se transformassem em militantes ideológicos, usando as salas de aula não mais para ensinar conteúdo de forma minimamente objetiva, mas para “transformar a sociedade”, para “formar novos cidadãos”, naturalmente marxistas empenhados na causa utópica, como o próprio Freire. A doutrinação ideológica ganhava ares de justiça, graças ao pedagogo marxista.


Parece que essa parte o colunista também entendeu. O que, me parece, não foi compreendido é que quando os professores agiam e continuam agindo de maneira a apenas perpetuar o status quo, sem discernimento, esta também é uma postura política e, naturalmente, ideológica. Só que não numa perspectiva transformadora, mas apenas reprodutora. Nesse ideal, não há injustiças, não há preconceitos, pobres e ricos se entendem muito bem, não há desafios sociais a serem superados. Ou seja, para o colunista, a sociedade está ótima do jeito que está e assim deve ser mantida. Não há porque se buscar transformações... É o que estou entendendo.


Contra o “fatalismo pragmático” dos “neoliberais”, Freire oferecia a “conscientização”, ou seja, os professores deveriam mostrar as “injustiças” do sistema capitalista, da globalização, conscientizando os alunos da necessidade de luta, de revolta contra os ricos, já que, para ele, a riqueza era fruto da exploração da pobreza, era uma “agressão” contra os desvalidos.


O colunista imagina quais outras formas – que não a conscientização – possíveis e desejáveis em um espaço educativo? O colunista continua acreditando que não há injustiças no sistema capitalista? Que a população não tem que ter clareza e tentar lutar pela igualdade? (Em nenhum momento falamos em pegar em armas, está entendido?). Essa luta é ideológica, sim, é política, sim e se dá através das ideias. Mas se as pessoas “não devem” aprender nas escolas que a sociedade é injusta, como vão aprender a confrontar as ideias? Alguma sugestão?


Postura minimamente neutra do professor, que oferece ao aluno diferentes pontos de vista, dá espaço ao contraditório, deixa o próprio jovem desenvolver um pensamento crítico e tirar suas conclusões por conta própria? Isso é uma ilusão que atende somente às elites opressoras. A prática educativa, diz Freire, é política por definição, não pode ser neutra, e por isso o professor “progressista” pode, deve levar todo seu viés para dentro de sala de aula.


Caro colunista, não existe postura neutra, por favor, vamos adiantar o passo. Ou ela transforma ou ela reproduz. O risco que corremos desde sempre, é que numa democracia, alguns professores podem pensar como o colunista e atuar pela reprodução do status quo. Por isso, o trabalho é de conscientização. Não é de ordem vinda de cima pra baixo, como passamos décadas obedecendo e nem de lavagem cerebral, como o colunista quer fazer crer.


Era a desculpa perfeita para militantes medíocres se tornarem “professores” e encherem a cabeça de nossa juventude com porcaria revolucionária. Hoje, os sindicatos dos professores, ligados aos partidos de extrema-esquerda, dominam o ensino público, todos inspirados em Freire. Nas aulas, o assassino Che Guevara é tratado como herói idealista, os invasores do MST como instrumentos de “justiça social”, e o lucro capitalista como exploração injusta.


Meu Deus, de onde você saiu, caro colunista??? Em que século você está? Militantes medíocres se tornando professores? Onde você pesquisou essa afirmação? Qual a sua base teórica para fazer tal assertiva? Encher a cabeça de nossa juventude com porcaria revolucionária? Do que é que você está falando? É medo que você tem? De quê? Pode se abrir aqui com a gente.


“Nunca me foi possível separar em dois momentos o ensino dos conteúdos da formação ética dos educandos”, escreve ele em “Pedagogia da autonomia” (tem ainda a do oprimido, a da solidariedade, a da esperança...). O pequeno “detalhe” é o que ele entendia como “formação ética”, claro. No caso, era “formar” novos seres “conscientes” de sua situação de oprimidos, para que reagissem contra as “injustiças do sistema”. Ou seja, criar soldados comunistas!




Uau! Pegou muito pesado agora! Criar soldados comunistas??? Meu caro colunista, em que lugar do mundo você esteve nos últimos 50 anos? Certamente, tudo o que você leu – todas as Pedagogias – de Paulo Freire - mesmo ele repetindo muito – não conseguiram fazer com que você entendesse suas ideias. A culpa deve ser da mente confusa de Freire, porque a do colunista está em perfeito estado de conservação. Tô me sentindo conversando com o grande herói americano Joseph MacCarthy que, felizmente, morreu em 1957.


Caso alguém ainda tenha dúvidas acerca de seus objetivos, ou pense que exagero na interpretação, deixemos o próprio explicar melhor: “Quando falo em educação como intervenção me refiro tanto à que aspira a mudanças radicais na sociedade, no campo da economia, das relações humanas, da propriedade, do direito ao trabalho, à terra, à educação, à saúde, quanto à que, pelo contrário, reacionariamente pretende imobilizar e manter a ordem injusta”.


Vou tentar mais uma vez. Caro colunista, eram os anos 60/70. Não havia discussão. Os professores não podiam se encontrar para discutir ideias, entendeu? Era contra essa situação justa (segundo o colunista) que tentava-se reagir. Em Educação, a palavra intervenção, não significa impedimento, mas como o próprio Freire explica, significa uma pausa para a retomada, para a discussão democrática. E ele deixa bem claro que, permitir que o professor aja é correr o risco de formarmos cidadãos ou formarmos reacionários. O colunista sabe qual é a diferença?


Ou seja, de um lado temos os “progressistas” como ele, que querem salvar a humanidade das garras capitalistas e levar prosperidade aos mais pobres; do outro temos os “reacionários” e “neoliberais”, que pretendem apenas manter o quadro de exploração da miséria alheia. E esse “educador” virou o patrono da educação brasileira!


SIM!!! Queremos salvar a humanidade, sim, senão estaríamos em outra profissão. Da mesma maneira que o médicos querem salvar pessoas, educadores querem ajudar a formar pessoas sabidas, criativas e ousadas, sem medo da sociedade e conscientes de seu papel sócio histórico no mundo.

Deixo o comentário final com Dom Lourenço de Almeida Prado, esse sim um grande educador que o país teve, reitor por anos do prestigiado Colégio São Bento: “É uma lástima que o meio católico se tenha deixado contagiar por esse mestre equívoco da pedagogia que é Paulo Freire e por essa falsa elaboração que chama educação libertadora. Na verdade, ela nada tem de libertadora, como nada tem de pedagogia. É uma campanha política, de fundo marxista, isto é, fundada no dogma da luta de classes e na divisão da humanidade entre opressores e oprimidos”.



Fala sério, colunista! Com todo respeito ao D. Lourenço (fui, inclusive, aluna dele, na Universidade Santa Úrsula), você traz como exemplo uma pessoa que passou a vida toda dedicada a formar elites. O meio católico de D. Loureço não reconhece os Freis Leonardo Boff e o Betto. Nunca se aproximou da pobreza real, nunca lutou pelos desassistidos (ou o colunista acha que eles não existem?). Ao contrário, sempre trabalhou de comum acordo com quem manda, numa clara herança e obediência à Igreja, ou o colunista desconhece o quanto Governos e Igreja sempre se confundiram na história do mundo?


Rodrigo Constantino é economista


Denise Vilardo é professora


Como última reflexão, quero externar que acho que as pessoas devem procurar comentar sobre que lhes é afeito. É evidente que todos os âmbitos sociais são da conta da sociedade, portanto todos gozam de liberdade para falarem o que querem. Me preocupa, sim, quando a pessoa dispõe de quase meia página de um jornal de amplitude nacional. A Educação parece ser a casa mãe joana, em que sempre tem alguém para palpitar, como se não houvesse conhecimento acumulado nas diferente áreas. Acho que nunca vi professor algum escrever algo contra ou a favor de Adam Smith ou Delfim Netto, que merecesse meia página de jornal, mesmo que fosse a tribuna de um jornal de bairro.




Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/o-patrono-da-educacao-brasileira-16848457#ixzz3gXSMglXI

quarta-feira, 27 de maio de 2015

É um desastre

O sistema de educação foi concebido para preparar as pessoas para ontem, não para hoje e muito menos para amanhã. São duas ordens de coisas: a primeira é o sistema falho, defasado, que continua preso aos ideais sociais do final do século XIX; outra coisa é a crença de que devemos preparar as pessoas para o futuro.

Preparar as pessoas para o futuro fazia sentido quando havia prognóstico sobre qual era o futuro que teríamos. Temos que preparar as pessoas para viver o hoje. Os sistemas de ensino sobrevivem como se fossem ilhas, isoladas da sociedade. As referências são efêmeras, difusas e, alunos e professores, encontram-se perdidos para lidar com o aqui e o agora.

A questão é preparar as pessoas para a imprevisibilidade. Brincávamos no colégio em que eu trabalhava, que nosso slogan deveria ser: "Aqui preparamos para o fracasso". É óbvio que não conseguiríamos aluno algum, mas seríamos mais coerentes com a necessária e urgente humanização do sistema. Os colégios "vendem" um falso produto, que é o sucesso irrestrito. Isso não condiz com a própria vida. Afora os conteúdos repetitivos e defasados, no colégio não entram os sentimentos de perda, de morte, de vida, de sexualidade, de frustrações.


A saída? Desconstruir a maioria das "verdades" que temos reproduzido incessantemente. Reconstruir novos e coerentes sentidos para a Educação. Perguntar-se continuamente, por que faço isso ou aquilo? Por que escolho isso e não aquilo? Utilizar as tecnologias para a construção de um novo projeto de sociedade. Uma visão sustentável em todos os âmbitos.

sábado, 9 de maio de 2015

Vítima de racismo em escola, menina é obrigada a pedir desculpas aos agressores

Escrito por Fernanda Canofre Desde que Camila dos Santos Reis consegue lembrar, a filha Lorena, de 12 anos, sempre foi uma menina doce, que gosta de correr pelo Parque Ibirapuera, em São Paulo, e assistir desenhos da Disney. No entanto, desde a volta às aulas esse ano, Lorena estava diferente — mais quieta, retraída. Era uma noite de março quando Camila recebeu uma ligação da escola avisando que Lorena seria transferida de turma porque “os colegas não se adaptaram a ela”.


Foi difícil para Camila entender. As duas sempre foram muito próximas, era estranho que Lorena não tivesse contado nada. Quando a mãe a procurou, ela explicou: tinha vergonha. Desde o início do ano letivo, Lorena — que é negra — estava sofrendo bullying e racismo na escola. No mesmo dia em que Camila recebeu a ligação, Lorena havia procurado a direção para reclamar dos ataques. Mas, segundo Camila, a escola só tomou medidas para identificar quem estava por trás dos atques duas semanas depois. Quando os outros alunos souberam que Lorena teve que nomear os agressores, acabou sendo confrontada, como conta o post da página Preta e Acadêmica: no espaço da escola, seus “colegas” começaram a questionar sobre o ocorrido, e como ela pode ter os dedurado, iniciando uma gritaria contra a criança, que correu para os braços da diretora do colégio.

A diretora, que “já está de saco cheio dessa história” (palavras da própria), resolveu fazer uma acareação. O resultado? Lorena teve que pedir desculpas para seus agressores. Por fim, a diretora perguntou se a menina gostaria de trocar de turma e Lorena, cansada, aceitou.

Quatro dias depois, as coisas pioraram. Como Camila contou em seu perfil do Facebook, compartilhado por mais de 74 mil pessoas, Lorena lhe enviou uma mensagem com a frase: “Olha como eu sofro”, seguida de uma série de áudios. (…) coloquei meu fone no ouvido, e apertei o botão “REPRODUZIR”, que susto eu levei… logo a primeira frase gritada em alto e bom som foi “SUA PRETA, TESTA DE BATER BIFE DO CARA*****”, foram 53 segundos de ofensas horrorizantes, palavrões ofensivos, a nível físico, racial e por incrível que pareça sexual, vinda de um garoto de aproximadamente 13 anos morador do condomínio onde vivemos.

Um grupo formado por 20 crianças — alguns da escola de Lorena, outros, seus vizinhos em São Bernardo do Campo — usaram um grupo no Whatsapp para seguir com as agressões contra Lorena. Camila conta no mesmo post: pedi para ela me mandar todos os áudios que tinha recebido, uma sequência de mais de 20 áudios aproximadamente, então percebi que os áudios estavam sendo enviados de um grupo de amizade da qual ela faz parte. Todos os participantes do grupo são do condomínio, onde 2 meninos a ofendiam enquanto alguns outros incentivavam as ofensas.

As frases que mais marcaram e mais me assustaram foram: “SUA PRETA, TESTA DE BATE BIFE DO CARA******!” “EU SOU RACISTA MESMO, QUANDO EU QUERO SER RACISTA EU SOU RACISTA, ENTENDEU?” “TODA VEZ QUE EU ENCONTRAR ELA NA MINHA FRENTE EU VOU ZUAR ATÉ ELA CHORAR” “VOCÊ VAI FICAR NESTE GRUPO ATÉ VOCÊ CHORAR” “CABELO DE MOVEDIÇA, CABELO DE MIOJO, CABELO DE MACARRÃO”

Muitos dos colegas ficaram quietos e preferiram não se manifestar, um deles até saiu do grupo quando as ofensas começaram, teve outro que se revoltou e disse que estavam passando dos limites e que aquilo já era desrespeito demais.

Entrei em choque, diante de tantas agressões psicológicas, tamanha inconsequência dessa juventude que ainda nos dias de hoje se comporta de maneira tão cruel, não posso encarar essa situação como “coisa de criança”, racismo nunca foi coisa de criança. Por envolver menores de idade, o caso foi encaminhado ao Conselho Tutelar. Dentro da escola, não houve nenhuma punição aos agressores ou mesmo uma tentativa de abordar a agressão com os envolvidos.

Em entrevista ao Global Voices, Camila revelou que isso foi o que a deixou mais indignada. “É o errado vencendo o certo, trocou de turma, mas os alunos não foram conscientizados do erro que estavam cometendo, e nos corredores da escola quando se encontrassem, como seria? Eles iam continuar ofendendo ela? Recebi uma ligação da escola no período da noite me informando que ela seria trocada de turma porque não houve uma adaptação. Como assim? E na sociedade aonde eu coloco ela?”. “Não é bullying, e sim racismo”

O que aconteceu com Lorena parece denominador comum na infância de alunos negros. É a experiência de vida de milhares de meninas negras que passam pelos anos de escola tendo que ouvir piadas sobre seus cabelos e a cor da pele. Todas vítimas de racismo, não bullying.

Para diferenciar as duas formas de preconceito, em 2013, um grupo de 21 mulheres negras resolveu reunir suas histórias de escola no livro “Negras (in)confidências: Bullying, não. Isto é racismo”, onde explicam: As organizadoras fazem questão de afirmar que o que ocorre com as crianças negras não é bullying e sim racismo, pois, no primeiro caso, a maior parte das agressões acontece sem a presença dos adultos e os que sofrem a agressão tendem a cometer atos de agressão por terem sofrido agressões, mas não falam sobre o assunto. O racismo, no entanto, é uma ideologia que afirma uma raça superior a outra; a ideologia é tão difundida que as agressões ocorrem tanto na presença de adultos, como os mesmos as promovem, assim, mesmo que as crianças procurem ajuda na escola, não a obterão, o que aumenta a sensação de injustiça e solidão. Acreditam que o bullying inferioriza e o racismo, para além de inferiorizar, desumaniza o ser humano.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Institucional de Pesquisas Econômicas (Fipe), em 2009, mostrou que o preconceito étnico-racial é o segundo mais forte nas escolas brasileiras, atrás apenas de preconceito por questões físicas, como obesidade. O estudo ouviu professores, funcionários e alunos de 500 escolas em todo o país. Apenas 5% dos entrevistados eram negros. Em 2003, a assinatura da lei 10.639, tornando o ensino da “História e Cultura Afro-Brasileira” temática obrigatória nas escolas, parecia anunciar uma mudança no sistema. Mas não foi bem assim.

Dez anos depois, num artigo na Revista Fórum, o professor Dennis Oliveira, membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (Neinb), apontou entre os problemas na implementação da lei a resistência de cursos superiores de pedagogia em incluir a matéria no currículo e, consequentemente, a falta de professores com formação nela. Viviane de Paula, em artigo publicado no site Blogueiras Negras, afirma que “o ambiente escolar é ainda agente opressor para muitas identidades”, algo que tanto o Estado quanto as comunidades escolares ainda não conseguem reconhecer: a escola, sem dúvidas, é um espaço sócio-cultural que deve aceitar e, sobretudo, discutir amplamente a pluraridade cultural, até mesmo como uma maneira de desconstruir preconceitos. O que muitas vezes presencia-se nas escolas são atitudes de descaso e silenciamento por parte da gestão escolar. Observa-se que os gestores de instituições públicas e privadas não se posicionam: é mais fácil esconder, do que problematizar.

#SomosTodasLorena

Depois de tudo o que aconteceu na escola, Lorena só queria ver o pai, a mãe e a melhor amiga. “Isso gerou uma insegurança muito grande nela, além da resistência em ir para a escola, ela está tendo muita dificuldade de dormir, acorda de madrugada e não consegue mais pegar no sono, e o apetite dela diminuiu muito”, contou Camila em entrevista ao GV. Ainda assim, o apoio que Camila encontrou nas redes sociais desde que contou a história da filha revela que a internet se abriu como espaço de afirmação a tudo aquilo que é ignorado fora da rede. “Diante da proporção que este caso tomou e da quantidade de mensagens de apoio, ajuda e carinho que recebemos, acredite, existem muito mais pessoas do bem do que do mal”, comentou em entrevista ao GV.

Logo após a publicação do relato no Facebook, um sociólogo escreveu para Camila se oferecendo para realizar um treinamento com o corpo docente da escola sobre medidas socioeducativas a serem tomadas nesse tipo de situação. A escola aceitou, mas depois voltou atrás. Segundo Camila, ainda há muito para acontecer até a conclusão do caso. A hashtag #SomosTodasLorena começou a circular mostrando mães e comunidades dedicadas a exaltar os cabelos crespos, como o grupo As Vantagens de se Enrolar. Desde que sua história apareceu na internet, Lolô (como Lorena é carinhosamente chamada) adotou um black power. Um começo para ela descobrir como ela é linda e tem poder.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Educação que temos rouba dos jovens a Consciência, o Tempo e a Vida

Quando ouvimos este psiquiatra chileno de 75 anos, temos a sensação de estarmos diante de Jean-Jacques Rousseau do nosso tempo. Ele nos conta que esteve bastante adormecido até os anos 60, quando se mudou para os EUA, se tornou discípulo de Fritz Perls, um dos grandes terapeutas do século XX, e passou a integrar a equipe de terapeutas do Instituto Esalen da Califórnia. A partir deste momento passou a ter profundas experiências no mundo terapêutico e espiritual. Entrou em contato com o Sufismo e tornou-se um dos introdutores do Eneagrama no Ocidente. Ele também se aprofundou nos estudos do budismo tibetano e do zen.

Claudio Naranjo tem dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino em universidades como Harvard e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração de Gestalt-terapia, o Eneagrama e Meditação para enriquecer a formação de terapeutas professores. Neste momento, lança um alerta contundente: ou mudamos a educação ou o mundo vai afundar.

1- Você diz que para mudar o mundo é preciso mudar a educação. Qual é o problema da educação e qual é a sua proposta?

– O problema da educação não é de forma alguma o que os educadores pensam que é. Acreditam que os alunos não querem mais o que eles tem a oferecer. Aos alunos vão querer forçar uma educação irrelevante e estes se defendem com distúrbios de atenção e com a desmotivação. Eu acho que a educação não está a serviço da evolução humana, mas sim da produção ou da socialização. Esta educação serve para adestrar as pessoas de geração em geração, a fim de continuarem sendo manipulados como cordeiros pela mídia. Este é um grande mal social, querer usar a educação como uma maneira de embutir na mente das pessoas um modo de ver as coisas que irá atender ao sistema e a burocracia. Nossa maior necessidade é evoluir na educação, para que as pessoas sejam o que elas poderiam ser. A crise da educação não é uma crise, entre as muitas crises que temos, uma vez que a educação é o cerne do problema. O mundo está em uma profunda crise por não termos uma educação voltada para a consciência. Nossa educação está estruturada de uma forma que rouba as pessoas de sua consciência, seu tempo e sua vida. O modelo de desenvolvimento econômico de hoje tem ofuscado o desenvolvimento da pessoa.

2- Como seria uma educação para a qual sejamos seres completos?

– A educação ensina as pessoas a passarem por exames, não a pensarem por si mesmas. É um tipo de exame em que não se mede a compreensão e sim a capacidade de repetir. É ridículo, se perde uma grande quantidade de energia! Ao invés de uma educação para a informação, precisamos de uma educação que aborde o aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Para mim parece que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação secular e uma educação autoritária, que é a educação religiosa tradicional. Está tudo bem separar o Estado e a Igreja mas, por exemplo, a Espanha, tem descartado o espírito, como se religião e espírito fossem a mesma coisa. Precisamos que a educação também atenda à mente profunda.

3- Quando você fala sobre a espiritualidade e a mente profunda o que quer dizer exatamente?

- Tem a ver com a própria consciência, com essa parte da mente da qual depende o sentido da vida. Está se educando as pessoas, sem este sentido. Tampouco é uma educação de valores, porque a educação de valores é demasiadamente retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação pessoal e esta transformação está longe da educação atual. A educação deve também incluir um aspecto terapêutico. O desenvolvimento pessoal não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito danificados afetiva e emocionalmente pelo fato de que o mercado de trabalho esta absorvendo os pais que não têm mais disponibilidade para os filhos. Há muita carência amorosa e muitos desequilíbrios nas crianças. Não pode aprender intelectualmente uma pessoa que está emocionalmente danificada. O lado terapêutico tem muito a ver com resgatar na pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de satisfazer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado, tanto a formação, quanto a criança, são instrumentos desta domesticação. Temos uma civilização doente que os artistas perceberam há muito tempo e agora cada vez mais pensadores, percebem também.

4- A educação parece interessada apenas em desenvolver as pessoas racionais. Que outras partes mais poderiam ser desenvolvidas?

-Eu coloco ênfase de que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que os homens predominaram no controle político, cerca de 6000 anos atrás, instaurou-se o que chamamos de civilização. E não é só o domínio masculino e nem só o domínio da razão, mas também a razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia; é este predomínio da razão instrumental sobre o afeto e a sabedoria instintiva, que nos tem empobrecido. A plenitude só pode existir em uma pessoa que tem os três cérebros ordenados e coordenados. Deste meu ponto de vista, precisamos de uma educação para os seres com três cérebros. Uma educação que poderia ser chamada de holística ou integral. Se vamos educar a pessoa como um todo, devemos ter em mente que a pessoa não é apenas razão. Ao sistema convém que cada pessoa não esteja em contato consigo mesma e nem que pense por si mesma. Por mais que se levante a bandeira da democracia, ele tem muito medo que as pessoas tenham uma voz e estejam conscientes. A classe política não está disposta a investir em educação.

5- A educação nos faz mergulhar em um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente. Como se pode sair desta prisão?

- Esta é uma grande questão, uma questão necessária, no mundo educacional. A ideia de que o conceitual é uma prisão, requer uma certa experiência de que a vida é mais do que isso. Para quem já tem interesse em sair da prisão intelectual, é muito importante ter disciplina para parar a mente, ter a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo… Parar os diálogos internos, em todas as tradições do desenvolvimento humano, tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa se alimentar de coisas a mais, do que conceitos. O sistema educacional quer aprisionar o indivíduo, em um lugar onde ele esteja submetido a uma educação conceitual forçada, como se não houvesse outra coisa na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza…a capacidade de reverência, de admiração, de veneração e de devoção. Isto não tem a ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está se perdendo, da mesma forma que estão perdendo, belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e se urbaniza.

6- Precisamente, quero saber sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.

- Ela é uma crise muito evidente, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que, com o aquecimento global, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, muitas pessoas não poderão sobreviver. Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando ficarmos sem o combustível, será um desastre para o mundo tecnológico que temos. As pessoas que chamamos primitivas, como os índios, têm uma maneira de tratar a natureza que não vem do sentido utilitário. Na ecologia, na economia e em outras coisas, temos dispensado a consciência e trabalhado apenas com argumentos racionais que estão nos levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança pelo coração, com a verdadeira transformação que só um processo educativo pode dar. Com isto, eu não tenho muita fé nas terapias ou religiões. Só uma educação holística poderia evitar a deterioração da mente e do planeta.

7- Poderíamos dizer que você encontrou um equilíbrio em sua vida nesse momento? Eu diria que mais e mais, apesar de eu não ter terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com muita satisfação, a satisfação de ajudar o mundo que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz nesta situação trágica em que todos nós estamos.

8- A partir de sua experiência, da sua carreira e sua maturidade, como você processa a questão da morte?


- Em todas as tradições espirituais aconselha-se, a viver com a morte ao lado. Você tem que chegar a essa evidência de que somos mortais, e que levar a morte a sério não será tão vaidoso. Não teremos tanto medo das coisas pequenas, quando temos uma coisa maior com que nos preocupar. Acredito que a morte só é superada para aqueles que de alguma forma, morrem antes de morrer. Precisamos morrer para a parte mortal, para a parte que não transcende. Aqueles que tem tempo, suficiente dedicação e que vão suficientemente longe nesta viagem interior, finalmente encontram seu verdadeiro Eu. Este ser interior ou este ser que é um, é algo que não tem tempo, e dá a uma pessoa uma certa paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossas vidas diárias, em nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc…Não estamos em nós mesmos, não temos conhecimento de quem somos. Para isso, precisamos estar muito sintonizados com a nossa experiência de tempo. Esta é a condição humana, estamos vivendo no passado e no futuro, no aspecto horizontal de nossas vidas, porém, desatentos para a dimensão vertical da vida, para o aspecto mais alto e mais profundo, nosso espírito e nosso ser. E a chave para este acesso, é o aqui e o agora. Às vezes estamos em busca do ‘Ser’ e às vezes ficamos confusos em busca de outras coisas menos importantes, como o sucesso e a fama.