sexta-feira, 29 de maio de 2009

Não se educa com proibição!

De acordo com a Lei 5453/09, recém sancionada pelo governador do Estado do Rio de Janeiro, está proibido o uso de aparelhos MP3, MP4, walkman, game boys, agendas eletrônicas, máquinas fotográficas, além dos celulares nas salas de aula, bibliotecas e outros espaços de estudo das escolas da Rede Estadual.

Convido a todos os interessados a fazerem uma reflexão comigo a partir da seguinte premissa: qualquer atitude de proibição, pura e drasticamente, deseduca mais do que educa.

Todas as vezes que lidamos com o que é proibido, temos mais vontade ainda de realizá-lo. Isso é natural do ser humano. Proibir por proibir, ou criar mecanismos de censura ao que julgamos que deva ser censurado, costuma acirrar mais ainda a vontade de se alcançar o objeto de desejo. E aí, fatalmente, as crianças e jovens (porque são saudáveis) vão procurar meios de burlar o que está sendo negado a eles.

Lidar com máquinas e aparelhos eletrônicos, para essa geração de crianças e jovens com os quais estamos lidando, faz todo o sentido. Não se trata de ser bom ou ruim. Está aí, e a nossa tarefa é transformar essa relação em algo produtivo, que gere novos conhecimentos. Qualquer coisa menos que isso, significa que estamos subutilizando as máquinas ou que temos medo delas...

Mas também não acredito no "pode tudo", porque essa atitude também não educa. É preciso conversar, reconversar, criar consciência, discutir os "não pode" e estabelecer acordos. Acordos de horários, acordos sobre os tipos de jogos que são mais ou menos adequados, acordos sobre a utilização de aparelhos eletrônicos nos espaços de estudo etc. E, cabe, aos adultos da relação, cumprir os acordos. Isso significa educar.

Algumas questões são fundamentais e, na minha experiência de mãe e educadora de jovens (trabalho com jovens na faixa dos 15 aos 21 anos), creio que a mais importante de todas é a coerência. Coerência entre o que pensamos, sentimos e agimos.

Não se educa com um discurso diferente da maneira como agimos.

Não dá pra ficar fazendo discurso de ter que ser respeitador, se o jovem não percebe o respeito nas relações que ele vivencia. Não dá pra dizer pro menino não ser preconceituoso, se ele observa a maneira pouco digna dos adultos (pais, professores) tratarem as pessoas que são diferentes deles.

Vamos sair do senso comum e abandonar os estereótipos que marcam os jovens como aqueles seres difíceis, inadaptáveis, que “não querem nada”...

Eles querem sim, querem ser tratados como pessoas que pensam, capazes de tomar decisões e querem também perceber que somos coerentes (nós, os adultos). O que eles não acreditam é na hipocrisia e odeiam ser enganados pelos outros.

Olho no olho. Sempre. Verdade. Franqueza. Virtudes. Fragilidades. Consistência.

Outra coisa que considero fundamental, além da coerência, é não nos esquecermos de como éramos quando adolescentes. Quais eram os nossos sonhos, em que pensávamos, o que fazíamos para “enganar” os nossos pais e professores, como gostaríamos de termos sido tratados. Essa medida – de como éramos – nos ajuda muito a entender quem eles são e como eles agem.

E, por último, da minha lista de “fundamentais”, é não ter medo de dar limites, não ter medo de dizer não. E, não é o não pelo não. É o não argumentado, denso, com propósito. É o não que convence.

Somos seres sociáveis e, como tais, estabelecemos compromissos de convivência para podermos avançar nos nossos propósitos comuns.

Nada do que falei é fácil de ser realizado no dia a dia, mas é possível e é bom que seja tentado.

Esse texto aparentemente sem nexo vem questionar, por fim, por que os professores do Estado do Rio de Janeiro precisam de uma lei para lhes dizer o que pode/deve ou o que não pode/não deve ser feito dentro do espaço escolar? Por que os professores precisam dessa tutela?

Quer dizer que vamos abrir mão de todas as possibilidades educadoras que os MPs, celulares, câmeras fotográficas etc nos trazem porque não sabemos dizer não? É isso mesmo, professores? Quer dizer que não sabemos mais educar? Precisamos de leis para nos dizer o que é adequado ou não nas nossas salas de aula?

Não é nosso dever, educadores que somos, ensinar os nossos alunos a utilizarem as tecnologias, sabendo tirar o melhor proveito delas, com espírito crítico e ético? Não somos nós que temos que estar na vanguarda do processo pra poder ajudar os nossos alunos a compreenderem melhor o mundo em que vivem?

Como vamos fazer isso nos escondendo do mundo?

Não se educa com proibição. Educa-se com consciência.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

As profissões invisíveis

Há algum tempo saiu uma reportagem numa dessas revistas semanais, contando sobre a experiência de um psicólogo, estudante de mestrado na USP.

Durante um bom tempo, não lembro exatamente quanto, ele se vestia de gari e ficava varrendo o campus universitário. A experiência serviu de pesquisa para a sua dissertação, que pretendia discorrer sobre as “profissões invisíveis”*.

O estudante ficou entre assustado e deprimido, porque seus colegas e professores passavam por ele e sequer o cumprimentavam, não o reconheciam naquele uniforme, simplesmente porque não percebiam a sua presença.

O professor da Universidade Federal de Sergipe, Doutor Marcus Eugênio, em recente entrevista aos jornalistas Paloma Abdallah e Wellington Nogueira, diz que existem basicamente duas teorias para explicar as causas da invisibilidade social.

A primeira explica a invisibilidade a partir da percepção dos indivíduos. As pessoas estariam tão familiarizadas com o ambiente, que ele não produziria qualquer tipo de estímulo nelas. Assim, como um pedinte já faz parte da paisagem do centro das grandes cidades, muitas vezes passamos por eles e não nos damos conta. Segundo ainda o mesmo professor, a outra teoria utilizada pela Psicologia é a da banalização. Essa tem a ver com a despersonalização dos indivíduos. Muito utilizada no exercício de certas profissões, como por exemplo, os médicos, quando tratam seus pacientes pelo número do quarto em que estão internados ou pela doença de que o paciente é portador. Ou, ainda, quando os professores “conhecem” seus alunos pelo número da ficha de chamada.

Trouxe essa discussão para os meus alunos – turma de adultos que já trabalham na área das Telecomunicações – e que, pressionados pelas firmas, vêm buscar o curso técnico. E foi uma discussão muito rica, com tristes constatações, na medida em que eles se perceberam como parte desse grupo de profissionais “invisíveis” todo o tempo, porque trabalham nas ruas, pendurados nos postes, ou enfiados nos subterrâneos das cidades.

Muitas outras profissões e outras tantas ocupações trazem a marca da invisibilidade. E são, na maioria da vezes, praticadas por quem nos assegura limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação. São os lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais.

O que não nos causa orgulho algum é a confirmação de que a invisibilidade social atinge todas as profissões que na, escala social, são consideradas inferiores.

São pessoas que trabalham diariamente, têm responsabilidades e, no entanto, só o que se enxerga é o que está fora delas, é o que elas produzem, é o serviço que elas prestam. E, só percebemos a existência delas, se ficarmos insatisfeitos com a qualidade do serviço oferecido.

O ser humano tem que vir em primeiro lugar, sempre. Não dá mais para ficarmos errando tanto...


*Seu estudo deu origem ao livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”. E seu nome é Fernando Braga da Costa.

Denise Vilardo

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Por que paramos de ensinar?

Há uma situação insustentável, com a qual os sistemas públicos vêm se deparando, e tentando resolver, desde a década de 80.

Nossos índices de reprovação são absurdos e essa é a maior causa da evasão escolar, conseqüentemente. Ou seja, meninos e meninas, reprovados seguidamente, acabam abandonando a escola. São gerações e gerações vivenciando esse processo. O resultado não pode ser outro: desemprego, alastramento das ocupações informais e gente morando nas ruas.

Reverter esse quadro é tarefa das grandes.

Primeiramente, há que se levar em conta que vivemos numa estrutura escolar forjada no século XIX e com a qual lidamos até hoje: isso se manifesta desde a ocupação física da sala de aula – com carteiras dispostas umas atrás das outras – até a organização curricular – aulas de 50 minutos, de disciplinas diferentes, sem qualquer ligação entre elas, passando pelos cânones disciplinares, que mais parecem os de um quartel, do que de um local onde se aprende e se constrói conhecimento.

Aliás, esse último item não é reconhecido pelos próprios professores, uma vez que ainda se trabalha com a idéia de que a escola é local para “passar” informações, e não para criar conteúdo.
Junte-se a essa receita infalível o fato de que, a partir da década de 70, com a universalização do ensino, imposta por Lei Federal, as escolas passaram a receber, em massa, crianças e jovens das classes populares, que nunca se livraram do estigma de “não aprendem porque são pobres, e se são pobres comem pouco e mal, e se comem pouco e mal, seus neurônios não se desenvolvem como deveriam...”, portanto, acredita-se:eles não aprendem.

Um outro dado relevante é que a Academia que forma professores – que deveria sair na frente, propondo soluções e acompanhando o progresso de pesquisas e experimentando-as – continua a ser a mais retrógrada das instituições, a que tem mais dificuldade em avançar em qualquer proposta de mudança. É a manutenção do “status-quo”.

Nesse sentido, reprovar em larga escala os alunos compõe um quadro coerente.

O que, na minha opinião, é mais desastroso nisso tudo, não é o fato de se reprovar, mas é o fato de não se ensinar! Essa é a grande questão. Se estivessem reprovando alunos e, os aprovados estivessem saindo da escola muito sabidos, eu dava a mão à palmatória. Os meninos e meninas saem das escolas sem saber muita coisa, além do que teriam aprendido se não tivessem freqüentado escola alguma! Os alunos não pararam de aprender aprender. A escola é que parou de ensinar – ou insiste em ensinar o que não tem sentido, não tem significado.

Os índices de reprovação são lastimáveis? São, sem dúvida alguma, e há que se estudar a respeito do desenvolvimento da inteligência, para se perceber que o ser humano é um ser potencialmente "aprendente" – não devemos reprovar, pelo simples fato de que não desaprendemos; a reprovação leva à evasão? Perfeitamente. É ato contínuo. Mas não adianta apenas termos “escolaridade estatística”, é preciso que as pessoas se apropriem do conhecimento.

Se isso vai afetar a produtividade de um país, o que vocês acham?

Denise

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O que é que a gente tem a ver com isso?

Média do Enem deste ano é a pior desde 2002


Os quase três milhões de estudantes que fizeram a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) este ano tiveram, na parte objetiva, média de 36,90, a pior desde 2002 e 10 pontos inferior a 2003. Em nenhum dos Estados a média de acertos passou de 40%. Em redação, o resultado, como é recorrente, foi melhor que na prova objetiva, mas também caiu em relação a 2005 e só é maior que em 2004, quando a média foi, pela primeira vez, inferior a 50 pontos.

O Ministério da Educação afirma que não é possível comparar um ano do Enem com o anterior, já que a prova é voluntária e a amostra termina por ser diferente. Mas, com três milhões de pessoas candidatos a uma vaga no ensino superior, é possível se dizer que esses estudantes sabem menos do que deveriam depois de terminar a escola básica.

Mais significativo, os alunos chamados de egressos - que terminaram o ensino médio há mais tempo - tiveram resultados melhores do que estudantes concluintes, que ainda têm frescas na cabeça as matérias ensinadas na escola. "Pode ser que esses egressos já tenham feito algum curso, entrado na faculdade", diz Reynaldo Fernandes, presidente do Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (Inep).

"O que acontece é que se perdeu o foco na educação básica e na aprendizagem dos alunos", diz o deputado Paulo Renato Souza (PSDB), ex-ministro da Educação. "O conjunto de resultados mostra uma deterioração, um retrocesso no ensino que é preocupante".
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Onde estão os nós?


É um quadro lastimável que os resultados das avaliações nacionais nos apresentam.

E isso reflete, sim, lá na frente, na falta de preparo do trabalhador, mas antes disso, esse quadro reflete o descompromisso da sociedade não apenas com a Educação, mas com ela própria.

Se quisermos entender um pouco desse processo, não podemos descontextualizar a Educação de todo o resto.

Quando pergunto onde é que está o nó, seguido de por que é que os professores pararam de ensinar, é porque tenho localizado esse "fenômeno" nos anos 80 pra cá.

Justamente quando os processos de desenvolvimento se aceleraram e as desigualdades foram ficando mais marcadas e marcantes.

A universalização da escola pública - trazendo pra dentro dela, obrigatoriamente, todas as crianças de 7 a 14 anos - começou nos anos 70, se consolidou nos 80, e encontrou professores completamente despreparados para lidar com essa realidade. As turmas de crianças limpinhas, bem alimentadas e com família estável, foram dando lugar a turmas de crianças sem referência familiar, sem alimentação adequada e sem noções básicas de "integração na estrutura social". Notem que em nenhum momento estou falando de crianças menos inteligentes ou com pouca capacidade de aprendizagem.

Mas, como disse antes, esse quadro não pode ser visto de maneira desvinculada do contexto sócio-econômico que também se apresentava nesse momento. Acabávamos de descobrir que o milagre econômico não existia, emburacávamos numa das maiores crises já vividas, traduzidas em desemprego em massa; além das famílias, também da classe média, começarem a desmoronar em todos os aspectos. Casamentos desfeitos passam a ser a tônica. A crise ética na política também começa a ficar mais evidente. Há correntes de estudiosos que afirmam, inclusive, que foi um período de pouca criatividade artística e cultural. O acesso às drogas também começa a se "naturalizar". E a corrida tecnológica avança enlouquecidamente. Não há lideranças e muito menos preocupação em formar novos líderes.

Viramos um país à procura de identidade.

E a escola? Completamente à parte disso tudo, continua a agir com o mesmo modelo do fim do século XIX e início do XX. Não sabe como se inteirar/integrar nessa realidade e ignora o contexto. E, parece, continua ignorando...

Junte-se a isso tudo, o descaso com a infra-estrutura educacional, o surgimento de inúmeros modismos pedagógicos importados e as relações de poder completamente corrompidas dentro e fora das instituições escolares.

Nesse momento, o professor, sem formação adequada (muitos, leigos, por esse Brasil afora), sem atualização profissional, sem salário digno, sem apoio pedagógico, sem, sem, sem... vai se tornando um profissional que não sabe mais de si mesmo, perdendo também a sua identidade, sem saber pra onde ir.

E pára de ensinar! Não porque quer, mas porque não sabe mais como, nem pra quê! Ele próprio passa a acreditar que não vale a pena investir "em quem não quer nada..." ou "que esse menino não vai ser nada na vida mesmo..."

Nossos professores desistiram dos nossos alunos, porque não aprenderam a lidar com a diversidade. Ainda são "preparados" para dar aulas para alunos ideais, interessados e obedientes, criados a danoninho, sustagem e leite ninho...

A escola vira um depósito de crianças e jovens, um onde ninguém mais quer estar. É ruim pra todo mundo.

E a escola insiste nas práticas tradicionais, desconhecendo todo o processo de mudança que vem ocorrendo continuamente e, quando percebe que precisa mudar, não sabe pra que lado ir, porque não está acostumada a pensar, só a cumprir ordens e medidas autoritárias, e portanto tem medo de ousar. E, pior que tudo, não tem um projeto de sociedade para tentar alcançar. Não tem metas, não tem utopia.

Quanto às questões disciplinares, situações de violência vivenciadas nas escolas, aprovação/reprovação, podemos continuar afirmando que não podem ser vistas de maneira descontextualizada. A escola não é um oásis no meio do deserto (embora até seja para alguns alunos), ela é produto do que acontece do lado de fora. A diferença é que ela não pode/deve reproduzir as atitudes do exterior, mas deve ter a preocupação de formar cidadãos para modificá-lo. E isso não está feito, não tem receita pronta. É construir no próprio caminhar.

Estamos diante de uma grande oportunidade de virar esse jogo, através do Projeto OLPC, que tem tudo para criar ânimo novo nos educadores, dando fôlego a quem precisa e apontando para uma escola que ensine e para professores e alunos que se percebam construtores de conhecimento.

Vamos começar do início?

Como dizia Paulo Freire, educamo-nos sempre em comunhão.

Partindo desse princípio, qualquer ato educativo pressupõe relação e presença, e com a atividade educativa via computadores não é diferente.

Ou seja, a educação virtual supõe conexão com outras pessoas: relação e presença.

E, se estamos todo o tempo falando em "Educação em Rede", "aprender em Rede", isso compreende que devemos passar a utilizar uma referência educativa exatamente oposta ao que se vê atualmente, que é uma educação individualista, voltada para a competição e para o "como levar vantagem".

A Educação em Rede necessita de conectividade, companheirismo, colaboração. E para que isso ocorra, eu já disse isso aqui outras vezes, precisamos de ideologia.

De nada adiantará distribuir computadores sem ideologia, sem mudança de comportamento, de atitude frente à aprendizagem. As máquinas podem chegar às escolas e nada representarem, se não houver uma mudança radical no ambiente escolar, nas concepções que ainda perduram. Tem que haver um projeto político-pedagógico que acolha o projeto de informática, e um projeto de informática que expresse o projeto político-pedagógico. É via de mão-dupla.

Moacir Gadotti (professor da USP e diretor do Instituto Paulo Freire), diz: "O novo meio exige uma visão mais construtivista e interacionista, em oposição ao instrumentalismo e à competitividade dominantes. Uma nova Pedagogia da Virtualidade faz-se necessária. Não basta ser usuário de um computador ou saber navegar pela Internet. Com a Educação em Rede, a formação centra-se na aprendizagem. Muda, portanto, o foco da educação tradicional."

E, para que isso ocorra efetivamente, precisamos de professores com uma nova atitude, porque espera-se uma Educação que também seja produção, seja mediação e acompanhamento. Por enquanto, os professores ainda não perceberam o seu tremendo potencial de companheiros de idéias emancipatórias e de fomentadores de projetos inter/transculturais.

Isso tudo pra tentar dizer que os softwares mais bonitos, sofisticados e competentes não garantirão melhoria de aprendizagem, sem que a dimensão desse professor/mediador seja revista, sem que haja uma profunda transformação dos modelos existentes.

Os softwares educativos, por si, não realizarão milagres.

A "Educação em Rede" tem todos os requisitos necessários para detonar a urgente e necessária mudança da escola que ainda existe.

E assim, quem sabe, os meninos passem a aprender a aprender?

Um grande abraço a todos

Respondendo a mais críticas à OLPC

Espaço há, pra tudo nesse mundo, mas temos a responsabilidade e cada vez mais consciência de que precisamos, sim, de discussões filosóficas, de parâmetros ideológicos - porque não existe Educação isenta de intencionalidade. E ao escolhermos essa ou aquela vertente, estamos dizendo a que viemos e aonde queremos chegar.

São as necessárias decisões políticas, no caso, político-pedagógicas.

Por se acreditar que há espaço para qualquer iniciativa, boas ou ruins (e essa adjetivação é absolutamente subjetiva), é que temos convivido com toda uma gama de situações cujo resultado é o que temos, quase nada. Confundimos instrução com Educação, sem conseguir sequer dar conta da primeira, ou imaginando que a primeira levará à segunda... Por se acreditar que qualquer iniciativa é válida é que se multiplicam os projetos de alfabetização, por exemplo, onde as pessoas aprendem apenas a decodificar o código, mas não se apropriam da leitura e da escrita, portanto, não aprendem a ler e a escrever...

Equívocos à parte... mais uma vez reitero a idéia de que estamos diante de uma oportunidade única, de estarmos fazendo parte de um momento histórico em que podemos mudar o rumo do que tem sido feito até então. Essa mudança é radical e diz respeito, sim, ao tipo de material que iremos utilizar e como iremos utilizar, porque sabemos onde queremos chegar. Queremos uma sociedade pensante, e para educar pessoas para pensar não serve qualquer iniciativa dita educacional.

Decididamente, "qualquer coisa" não serve!

É uma mudança que vislumbra um salto qualitativo na Educação do nosso país, levando em conta tudo o que já aprendemos. É hora de sair do lugar-comum, de fazer diferente, o que nunca foi tentado, sem medo de criarmos os nossos próprios modelos.

Respondendo às críticas à OLPC

Da mesma maneira que as crianças que terão oportunidade de lidarem com os laptops no seu cotidiano não deixarão de pular amarelinha, nem de brincar de pique-esconde, e ainda continuarão plantando feijões no algodão úmido e medindo a sala de aula com barbante - porque as coisas não se excluem, mas se complementam e se ampliam - convivemos com escolas onde os laboratórios de informática ficam fechados e, ainda, bibliotecas escolares não são acessíveis aos alunos, para não "estragarem", convivendo com iniciativas bastante sérias e produtivas - em escola públicas, sim - onde alunos e professores têm oportunidade de realizar trabalhos belíssimos de primeira linha.

Dêem uma olhada no http://internetnaeducacao.blogspot.com/ e encontrarão uma infinidade de relatos de experiências fantásticas que já estão acontecendo nesse país, envolvendo professores e alunos de escolas públicas que, a despeito de toda adversidade, encontram oportunidade e têm compromisso e responsabilidade com os princípios fundamentais da educação de construir conhecimento e autonomia.

Nós, educadores, somos responsáveis pelo debate e pelo esclarecimento pedagógico do que deve ser feito na escola. E escola é lugar de formar gente em suas potencialidades e diferenças.

Escola é lugar de compreender e aprender para o mundo que estamos vivendo agora, e não para um futuro que sequer sabemos qual será.

Escola é lugar de se pensar alternativas para melhorarmos o que não está bom, de se aprender a lutar pelo bem estar coletivo.

Escola é lugar de formamos pessoas para respeitarem-se umas às outras, para serem colaborativas, justas e dignas.

Escola é lugar de ampliar e produzir conhecimentos.

Escola é lugar de transformação.

E se a sociedade está do jeitinho que está, cheia de gente "sabida e esperta, que só sabe levar vantagem em tudo", é porque temos formado gerações e gerações, sem nos preocuparmos com as transformações necessárias, preocupados que somos com a manutenção de uma coletividade perversa, que já se mostrou suficientemente incapaz de acolher os verdadeiros valores da vida humana.

E os laptops chegam para ajudar nessa urgente e necessária mudança. E não pode chegar devagarzinho, nas pontas dos pés, mas tem que chegar assim mesmo, mobilizando as pessoas, desestabilizando as "verdades" estabelecidas e criando um caos inicial, para que depois se retome o ponto de equilíbrio.